
Já comentei aqui neste blog por várias vezes que o cenário de RPG que mais joguei/narrei, e o que mais gosto, é Witchcraft, jogo publicado pela Eden Studios e escrito por C.J. Carella, que também já escreveu vários suplementos para GURPS e uma linha romances que começou com um livro chamado Armageddon Girl.
O cenário de Witchcraft muito se assemelha ao Mundo das Trevas da White Wolf, tendo magos, vampiros, lobisomens, fantasmas, e mais uma cacetada de outras criaturas sobrenaturais, participando do mesmo cenário. Entretanto, diferente do Mundo das Trevas, no qual é difícil fazer com que as criaturas sobrenaturais de cada livro possam interagir no mesmo cenário, em Witchcraft isso é mais fácil e totalmente interativo. As Crônicas das Trevas procurou corrigir este problema, criando uma maior interação entre as criaturas sobrenaturais de cada livro para interagirem em um mesmo cenário, mas mesmo assim acabou sendo um pouco dificultoso para o narrador reunir várias criaturas sobrenaturais em uma mesma aventura ou campanha. Em Witchcraft isso não acontece, e a mistura de várias criaturas sobrenaturais é perfeitamente possível e natural no cenário, como misturar os Vampiros e os Ferals, como são conhecidos aqui os metamorfos, em uma mesma campanha.
Uma das coisas legais neste RPG é que existem também criaturas sobrenaturais que caçam outras criaturas sobrenaturais, tentando equilibrar a guerra em favor dos humanos que nada sabem sobre estes predadores e que são presas fáceis para esses assassinos que se infiltram na sociedade para se alimentarem dos mortais. Entre eles estão os Death-Dealers (Mercadores da Morte) da Casa de Thanatos, que irei explicar quem são e como você pode usar a ideia no seu RPG favorito.
A CASA DE THANATOS
A Casa de Thanatos é uma associação de Gifteds, como são chamados aqueles que possuem habilidades especiais ou não são mortais em Witchcraft, composta principalmente por vampiros e outros mortos-vivos que tem como principal objetivo estudar e compreender a morte e como seus membros foram capazes de escapar dela. Eles foram apresentados aos jogadores no suplemento Mystery Codex, ao lado de outras ordens formadas por criaturas sobrenaturais. Dizem que a origem da associação vem do tempo da Atlântida, e que os primeiros necromânticos da ordem vieram da Lemuria, uma terra perdida imaginária que estaria localizada no Oceano Índico ou Pacífico que seria uma ponte para vários outros locais misteriosos. Eles acabaram se tornando os rivais dos Imortais nascidos na Atlântida e por isso expulsos de lá, enquanto os Lemurianos foram mortos quando ocorreu o Dilúvio. Apesar disso o conhecimento deles foi preservado e transmitido através dos séculos para outros membros que se uniram a ordem.
Segundo a doutrina dos Thanatoi os Reinos da Morte possuem vários estágios de existência, e em alguns deles é possível que uma alma possa romper com o ciclo de vida e morte e se tornar imortal, voltando a vida como um morto-vivo, um fantasma (um espírito que consegue se manifestar fisicamente na Terra por breves momentos) ou um Relentless Dead (como Jason, da franquia Sexta-Feira 13, ou Michael Myers da franquia Halloween). Além dessas criaturas sobrenaturais também é possível encontrar na ordem alguns mortais necromânticos que descobriram maneiras de prolongar suas vidas, e até mesmo psiônicos e magos que possuem interesse nos assuntos da morte.
A Casa de Thanatos se organiza em Capelas, que mais se parecem com clubes privados de cavalheiros, e podem ser encontrados em boa parte das grandes cidades no mundo, principalmente nas capitais, embora algumas Capelas sejam também encontradas em áreas remotas. Qualquer lugar que tenha o potencial de revelar segredos sobre a morte, a Casa de Thanatos estará presente. Em minhas aventuras as principais Capelas da ordem ficavam em Salvador (BA) e Rio de Janeiro (RJ). Nos EUA a mais famosa delas fica na região da Nova Inglaterra, no Maine.
AS FACÇÕES
A Casa de Thanatos é dividida em três facções, que não se opõem entre si e possuem campos de interesse diferentes dentro da ordem. Diferente do Mundo das Trevas onde a política é um ponto chave para entender a relação entre clãs, tribos ou ordens, no cenário de Witchcraft isso não é tão valorizado, sendo o estudo e combate ao sobrenatural o maior destaque. As facções são os Savants (Sábios), Sybaritas e os Paladinos.
Os Savants são os estudiosos da ordem, interessados e fascinados com os mistérios da vida e da morte, sendo responsáveis por coletar e organizar informações para pesquisa, que possam entender melhor esse ciclo eterno.
Os Sybaritas são membros que procuram o prazer existente na vida e na morte, sendo em sua maior parte artistas que acreditam que os Reinos da Morte são lugares para se explorar e desfrutar.
Já os Paladinos tem como principal objetivo proteger a Terra e os Reinos da Morte da incursão de criaturas de outras dimensões, que possam vir a quebrar o equilíbrio do eterno ciclo da vida e da morte. Eles são particularmente interessados nos Beyonders, como eles chamam os Mad Gods (criaturas parecidas com as descritas nos Mythos do Cthulhu), que ameaçam nossa existência. Os Paladinos formam grupos que investigam cultos a essas criaturas nas subculturas de cada cidade, procurando acabar com eles e mandar esses “deuses” de volta para suas dimensões. Dentro dos Paladinos existe um sub-grupo chamado Death-Dealers (Mercadores da Morte), selecionados por sua proficiência em combate e assassinato. Eles são os mais perigosos e temidos entre todos os Thanatoi, porque são especialistas não apenas em destruir os vivos, mas também os mortos-vivos e espíritos. São mestres em combate desarmado ou com armas, tanto armas brancas quanto armas de fogo, além de um repertório de magias de combate, usadas para banir ou destruir criaturas sobrenaturais.
São Vampiros dotados de grande poder, Fantasmas e Relentless Dead que juraram impedir que aconteça com inocentes o que aconteceu com eles. Os Death-Dealers são os piores inimigos que uma criatura sobrenatural pode ter em um cenário de Witchcrat. Não há criatura viva ou morta que não tenha ouvido falar neles, já que a fama da facção atravessa dimensões.
O uso de Death-Dealers é perfeita em uma campanha de horror que tenha muita ação e combate, mas seria possível levar os Death-Dealers para outros cenários de jogos além do Witchcraft? Eu acho que sim. Logicamente iria exigir do narrador além de algumas adaptações nas regras adaptar também o motivo da existência dos Death-Dealers no seu cenário escolhido, ou da existência da Casa de Thanatos, se assim preferir. Vamos dar uma olhada em algumas ideias de cenários para adaptá-los para os RPGs existentes no mercado nacional.
SAVAGE WORLDS
O primeiro RPG que me vem a mente é Savage Worlds, publicado no Brasil pela Retropunk Publicações, por sua facilidade em adaptar qualquer cenário, e por ser indicado para aventuras que tenham ritmo rápido e furioso, como pede um cenário com Death Dealers. Aqui os Death Dealers podem ser um grupo como mostrado no filme da Netflix, Old Guard, que tem Charlize Theron no papel principal como uma imortal que lidera um grupo de imortais que participam de combates ao redor do mundo como mercenários, que tentam transformar o mundo em um lugar mais justo e sem sofrimento para os mortais.
Com o uso do Compêndio de Horror podemos criar um Death-Dealer a partir do arquétipo Caçador Escolhido Típico (página 49 do CdH), dando a ele as Vantagens e Fraquezas de um Dhampyr (página 10 do CdH), de um Fantasma (página 10 do CdH) ou de um Vampiro (página 11 do CdH), para criar o Death-Dealer mais parecido com o de Witchcraft e justificar a imortalidade. Se quiser uma campanha mais overpower use Caçador Escolhido Veterano (página 50), mas lembre-se de colocar inimigos condizentes com a força dos personagens para ficar desafiador. Caso queira incluir no grupo um Savant, para ser o suporte de conhecimento para o grupo, permita que um jogador escolha um Bruxo/Feiticeiro (página 49) como sendo um deles.
Neste tipo de cenário os Death-Dealers irão caçar qualquer criatura sobrenatural que apareça na cidade onde você basear a campanha, ou da lista de criaturas do CdH. Você pode também colocá-los na estrada indo de cidade em cidade, investigando casos sobrenaturais de assassinatos ou desaparecimentos inexplicados. A Casa de Thanatos pode ser o apoio financeiro e de equipamentos, místicos e mundanos, que o grupo precisa para caçar essas criaturas.
IN NOMINE
Um Death-Dealer que caça Anjos e Demônios em In Nomine seria muito interessante (já tô até imaginando uma aventura). Os jogadores podem ser Múmias ou Vampiros pertencentes a Casa de Thanatos, uma ordem milenar que conhece sobre a Guerra Eterna entre céu e inferno e procura evitar que esta guerra atinja os mortais. A Ordem foi criada por um Reminiscente há milênios atrás que fez um pacto de não alinhamento nem com o céu, nem com o inferno, e procura manter essa disputa sem um vencedor, com medo que o lado que ganhe possa escravizar a humanidade. Para dar um pouco mais de chance aos personagens, e para simular a capacidade dos Death-Dealers de fazer um estrago em criaturas sobrenaturais, permita que os personagens comecem com 7 pontos de energia, devido ao treinamento pesado para combater essas criaturas. Os Savants do grupo podem ser Padres da Igreja Católica que são construídos como Soldados de Deus, fornecendo além de conhecimento, acesso a armas místicas que pertencem a Igreja.
As aventuras podem envolver a busca por artefatos mágicos que interessam um lado ou o outro na guerra, impedir que uma profecia se concretize, proteger um humano que é alvo dessas criaturas ou caçar Renegados que estejam na cidade. Tem muita história para acontecer.
ARQUIVO PARANORMAIS
A história dos Death-Dealers casa muito bem com Arquivos Paranormais, RPG de Jorge Valpaços publicado pela Avec Editora. A Casa de Thanatos é uma Agência Sobrenatural de Escopo 3 composta por criaturas sobrenaturais que tem como objetivo investigar eventos paranormais, tendo um Tom Heróico e Protetor. As facções da Casa de Thanatos podem ser aqui interpretadas como as Divisões da Agência, sendo a Divisão Paladino a qual pertencem os jogadores. Como não há personagens sobrenaturais no jogo crie os Vampiros, Mortos-Vivos ou Fantasmas apenas como uma maneira de dar uma atmosfera ao jogo, mas use as regras normais de criação de personagem do jogo.
As aventuras irão envolver investigação de cultos que estão raptando e sacrificando pessoas para criaturas de outras dimensões, um grupo de vampiros que estão agindo em uma região fazendo vítimas, magos que estão coletando artefatos mágicos proibidos, seres sobrenaturais que estão atacando uma determinada cidade, etc. Procure dar o clima de investigação que o jogo pede mas capriche nas cenas de ação, que são a especialidade dos Death-Dealers.
CEIFADORES
E que tal jogar uma aventura dos Death-Dealers com Ceifadores, outro RPG também feito pelo Mestre Jorge Valpaços publicado pela Avec Editora, onde você é um assassino profissional que deve cumprir missões de execução? Os ceifadores fazem parte de um enclave da morte, uma espécie de coletivo de assassinos, que pode ser um grupo paramilitar, uma agência de assassinos seriais, as forças da lei que detém o monopólio da violência, a elite de assassinos de um rei, uma seita fundamentalista, ou como neste caso uma ordem mística sobrenatural que possui um grupo que caça e extermina criaturas sobrenaturais que ameaçam os mortais. Neste jogo, como em Arquivos Paranormais, os personagens são pessoas normais, não existindo criaturas sobrenaturais, mas você pode criá-los da maneira normal e apenas adicionar a característica de morto-vivo para dar um toque ao personagem, sem interferir nas regras do jogo.
MONSTRO DA SEMANA/APOCALIPSE WORLD
Usando Mostro da Semana, lançado no Brasil pelo Clube dos Autores, que é um jogo Powered by the Apocalipse, use as cartilhas do Escolhido, Especialista, Profissional e Sinistro para criar seus Death-Dealers e sair por aí caçando seus alvos. Aqui eles podem fazer parte de uma célula de Paladinos que caçam as criaturas sobrenaturais na cidade, no estilo Buffy – The Vampire Slayer. Além da caça pura e simples os personagens podem estar envolvidos na busca por respostas aos mistérios da morte. Caso queira construir um cenário mais dramático, com mais desenvolvimento da história no mesmo conjunto de regras, use Apocalipse World, lançado no Brasil recentemente pela Secular Games. Neste cenário, que seria o futuro de Witchcraft mostrado em outro RPG de C.J. Carella, Armageddon, o mundo sucumbiu perante as forças sobrenaturais e os sobreviventes tentam se manter vivos e escapar das criaturas sobrenaturais que povoam a Terra. O grupo de jogadores são gifteds remanescentes da extinta Casa de Thanatos, que tentam sobreviver em um mundo em ruínas ao mesmo tempo que tentam encontrar uma maneira de recuperá-lo para os mortais, vagando por cidades abandonadas, comunidades isoladas em busca de uma maneira de mandar de volta para a dimensão que vieram os monstros que assolam o planeta. Aqui para melhor distribuir os manuais de personagens pode-se usar apenas um dos personagens como Death-Dealer (Pistoleira), sendo os outros personagens um Savant (Gênia), um Sybarita (Artista) e outro da escolha do grupo como um membro da ordem sem facção, onde aconselho uma Psico ou uma Maestrina D’. As criaturas sobrenaturais podem ser construídas como Grotescos e Brutos, com várias Misérias assolando o mundo, e um Senhor da Guerra que deve ser derrotado para trazer de volta a normalidade. Esse cenário na minha opinião tem muito potencial nas mãos de narradores experientes em dramas pessoais.
VAMPIRO: A MÁSCARA
Aqui vai uma ideia que deixará os narradores deste cenário com caraminholas na cabeça: um grupo de Death-Dealers que trabalham para a Segunda Inquisição, sendo Vampiros que caçam Vampiros, traidores da sua própria espécie, e que por isso também são caçados por seus pares.
Aqui não existe a Casa de Thanatos, apenas um grupo de vampiros auto-intitulados Paladinos que quando vivos eram grandes devotos da Igreja Católica, e que não se conformam no que foram transformados, preferindo se unir a Segunda Inquisição quando ela se formou, dando informações valiosas para a organização e sendo usados por ela para combater os vampiros mais poderosos da Camarilla. Eles querem encontrar uma maneira de serem perdoados por Deus pelos crimes que foram obrigados a cometer no início de sua vida imortal pelos seus senhores, e agora querem vingança e expiação de pecados. Eles são treinados e treinam agentes da SI em combate, além também de agirem como espiões se infiltrando na sociedade vampírica para coletar informações antes dos ataques acontecerem. Alguns membros da Segunda Inquisição acreditam que os Paladinos são Anjos da Morte, enviados por Deus para punir os vampiros que eles acreditam ser uma ofensa ao criador.
MAGO: O DESPERTAR
O fato de Atlântida ser citada em Witchcraft como um dos locais onde surgiu a Casa de Thanatos, logo me faz imaginar o uso dos Death-Dealers em Mago: O Despertar. Aqui a Casa de Thanatos pode ser uma Cabala composta por magos Thyrsos e Moros da Seta Adamantina interessados nos segredos da vida e da morte, preservar o conhecimento adquirido desta cabala milenar, e caçar criaturas sobrenaturais. Eles tem como alvo principal os Magos Lich-Tremere, pelo fato deles desvirtuarem o ciclo da vida e da morte. Além disso podem estar atrás também dos Scelestis, por fazerem pactos com criaturas do Abismo, que aqui poderiam ser uma ameaça parecida com os Mad Gods do cenário original dos Death-Dealers.
OUTROS CENÁRIOS
Caso eu tenha esquecido de algum cenário de fantasia urbana, horror e ação sobrenatural, comentem abaixo, mas acredito que tenha dado pra pegar a ideia principal da existência dos Death-Dealers, e como eles lidam com as ameaças sobrenaturais. Espero que tenham gostado. Fiquem em casa, joguem online com os amigos, lavem bem as mãos com sabão e até a próxima.









Caberia também uma adaptação para zauBeR, que é um RPG de fantasia urbana também. Imagino que o Death Dealer combine com o caminho do guerreiro de lá.
Não conheço, mas já vi que é do Marcelo Paschoalin, então vou comprar e ler. Valeu pela dica.
Witchcraft é um RPG que sempre quis conhecer, lembro que li algo sobre ele numa Dragão Brasil há alguns seculos e me interessei imediatamente, mas como não domino o idioma eu desisti dele…
Vou fazer mais artigos sobre o cenário, que dá pra galera pelo menos adaptar para seu RPG preferido algumas coisa. Ah, e essa Dragão Brasil que você tá falando foi a mesma que me fez ficar interessado no cenário.
Aí sim hein! Vou ficar na espera pra ver se consigo fazer algo com as Crônicas das Trevas!
Sim, tem muitas coisas que dá pra adaptar. Já vai na aba lateral onde tem as tags e clica em Witchcraft pra ver o que já publiquei sobre o cenário por aqui.