Atuando ou Interpretando?

Atuando ou Interpretando?

Uma confusão muito clara se estabelece entre os praticantes de RPG, no meu modo de ver, no que diz respeito a condução de seus personagens no decorrer de suas campanhas. Essa confusão se dá na diferença entre interpretação e atuação, onde os jogadores não percebem a diferença e pensam que estão fazendo uma coisa quando na verdade estão fazendo outra. Vamos então definir o que significa um e outro.

Atuação é definido como: “Uma ação que consiste em imprimir, por meio de diversas técnicas, ou mesmo da pura intuição, vida e realidade a um personagem. Muitas vezes tida como fruto da inspiração, e até da possessão divina ou da racionalização das emoções, é a parte específica dos artistas da cena, e que nesta aparecem, diferentemente de dramaturgos e diretores.” Esse é aquele momento do jogo quando o jogador faz a voz do seu personagem, gesticula, as vezes até se levanta da mesa para dar vida a um personagem de papel. Vamos definir agora interpretação.

Interpretação é: “Uma ação que consiste em estabelecer, simultânea ou consecutivamente, comunicação verbal ou não verbal entre duas entidades. É um termo ambíguo, tanto podendo referir-se ao processo quanto ao seu resultado – isto é, por exemplo, tanto ao conjunto de processos mentais que ocorrem num leitor quando interpreta um texto, quanto aos comentários que este poderá tecer depois de ter lido o texto.” Ou seja, interpretar é ler a ficha do seu personagem e entender suas características, tanto positivas quanto negativas, para poder dar vida a ele, fazendo ações correspondentes a essas características no curso da aventura.

Vamos então trocar em miúdos tudo isso. Atuar é o que um ator faz durante uma cena de um filme, quando ele dá vida a um personagem imaginário se vestindo, falando, gesticulando como se fosse ele. Já interpretar é entender a sua ficha de personagem com todas as vantagens e desvantagens, alinhamento, ocupação e tudo mais que foi escolhido pelo jogador durante a construção do seu personagem e tomar decisões e agir conforme essas características pedem. Aí é que começa a confusão.

Grupo de Live Action.

A grande maioria dos jogadores acredita que jogar RPG é passar uma sessão inteira atuando e não interpretando. Boa parte dessa confusão veio da época de “Vampire: The Masquerade” e seus Live-Actions, na qual os jogadores passaram a entender que jogar RPG é ficar falando, gesticulando, etc, como ele imaginava seu personagem, ou seja, atuando. Vamos lembrar que a sigla RPG significa Role Playing Games, ou algo como Jogos de Interpretação de Papéis, já que nos primeiros RPGs criados, e mais especificamente o D&D, os jogadores assumiam papéis no jogo, como o mago do grupo, responsável pelas magias; o ladrão, responsável por desarmar armadilhas; o clérigo, responsável pela cura, etc; Cada um era responsável por um papel dentro do grupo e apenas agindo em conjunto seriam bem sucedidos. Por isto também se afirma que o RPG é um jogo onde não há competição e que os jogadores devem cooperar entre si para para conseguirem atingir um objetivo.

A confusão fica maior quando o jogador só atua e não interpreta, significando dizer que ele incorpora um personagem mas age completamente diferente do que pedia as características presentes em sua ficha de personagem, como o Clérigo Lawfull Good que resolve roubar um item de posse de outro personagem, ou um personagem de GURPS que pega um monte de Defeitos apenas para ganhar mais pontos para gastar em perícias e se esquece do interpretá-las.

Muitas vezes inclusive a sessão fica chata quando qualquer cena, e não apenas as mais importantes, os jogadores acham que precisam de atuação e não de interpretação, principalmente quando querem fazer a cena de explicar para outro personagem uma coisa que todos já sabem ou viram acontecer, e na qual bastava apenas o jogador dizer: “Meu personagem explica tudo pra ele”. A situação fica pior quando a atuação do personagem fica longe da interpretação, deixando de lado várias características escolhidas por ele na construção de personagem e tomando ações completamente diferente do que deveria fazer. As vezes isso ocorre porque começa uma competição entre os jogadores para ver quem atua melhor achando que isso garantirá mais pontos de experiência. Isso somente ocorre porque alguns mestres também não entendem a diferença entre atuação e interpretação e premiam com mais pontos os jogadores que melhor atuaram em detrimento do que melhor interpretaram.

Os jogadores não precisam atuar em todas as cenas, mas precisam interpretar durante toda a sessão, diferentemente do mestre que precisa, esse sim, atuar durante toda a sessão já que ele interpreta vários personagens diferentes e para diferenciá-los para os jogadores precisa fazer várias atuações diferentes para deixar claro a mudança de interpretação de personagem.

Passar toda a sessão atuando, querendo fazer de todas as ações uma cena falando e gesticulando como seu personagem faria segundo sua imaginação, torna a sessão longa e com várias situações desnecessárias. As vezes uma simples interpretação basta na situação ao invés de uma longa atuação. Se seu personagem é um sujeito que segundo as características escolhidas por você é um sujeito que gosta de intimidar ou se exibir não há necessidade de atuar em toda a cena que isso acontecer, mas você precisa interpretar durante toda a sessão essa característica mesmo quando o vilão malvadão aparece no jogo e você acha que se fizer isso vai se dar mal. Você sabe disse, seu personagem não, porque ele gosta de se exibir e intimidar os outros então ele não se intimidará na frente do vilão.

Então da próxima vez que você estiver em uma sessão de RPG pense na seguinte pergunta: Eu estou atuando ou interpretando? Interpretar é a alma do jogo, atuar é apenas um toque a mais que pode ser feito algumas vezes durante toda a sessão e não durante ela toda.

11 pensamentos sobre “Atuando ou Interpretando?

  1. Pois é, eu sempre pensei nessa diferença mas nunca parei para tentar escrever a diferença entre elas. Interpretação realmente é a alma da coisa mas muita gente acha que é atuar e fica chato e forçado pra cacete algumas sessões. As escolhas difíceis do jogo, as decisões que são pensadas de acordo com seu personagem e situação em que ele se encontra pra mim são as principais coisas do RPG, não a ceninha melodramática que rolam de vez em quando.

  2. Pra mim interpretação no contexto do rpg significa participar da narração uma historia através de seu personagem, logo meu conceito inclui o seu, sendo apenas um pouco mais amplo. E também acho que a atuação é um detalhe, que pode tornar o jogo mais interessante, mas não essencial ao rpg (podendo até mesmo tornar o jogo desinteressante). Parabéns pela iniciativa da postagem, e se alguém disser que você está dizendo que há um jeito certo de jogar e que o que importa é a diversão… Bem, não se importe.

    • Com certeza. Como disse no início do artigo é o meu ponto de vista sobre o assunto e outros jogadores e grupos de jogadores podem pensar ao contrário. O mais importante é a gente debater sobre o hobbie. Um abraço.

  3. Da onde vem essas definições dos termos atuação e representação, André? Você não cita fontes.

    E sobre o Role Playing Games, acho legal não cristalizarmos o termo interpretação para role playing (ou roleplaying). “Role” é papel – e nesse sentido sua explicação é bem interessante da origem do termo – no sentido de personagem ou no sentido de função desempenhada. “Play” é aquela palavra intraduzível do inglês que pode signficar “jogar”, “brincadeira”, “peça teatral”, “tocar (um instrumento)”… é uma palavra difícil de traduzir. Raramente, a não ser no caso dos RPGs, roleplaying é traduzido como “Interpretação de papéis”. A psicologia por vezes traduz como “tomada de papéis”. Outras fontes vão usar “representar”, por exemplo.

    Da maneira como você coloca, parece ter um jeito certo de fazer – e um jeito errado. E isso me incomoda um bocado. Certos rpgs – e certos grupos de jogo – favorecem experiências completamente diferentes do que você está propondo como correta… o artigo está praticamente desmerecendo esses jogos e grupos.

    Também a discussão sobre interpretação e atuação me parece bastante descolada das discussões sobre representação e participatividade – e eu fico me perguntando se o intuito do artigo é investigar e procurar entender os conceitos (e mais do que isso, a natureza da prática) ou apenas ditar regras.

    E fico com uma pulga atrás da orelha: devemos entender o que significam os termos e enquadrar nossa prática a esses termos (que nem sabemos de onde vieram) ou devemos entender as práticas possíveis e buscar quais termos melhor a definiriam?

    • Desculpa Luiz, esqueci de colocar as fontes. Ambas as definições vieram do dicionário da língua portuguesa online. Como disse no início do artigo é a minha visão sobre esse assunto. Outros podem ter uma visão diferente. Eu vejo muitos jogadores atuando, ou representando, mas poucos realmente o que escreveram em suas fichas ou as escolhas que fizeram no início da criação do personagem.

  4. O artigo é oportuno. Claro que o importante é sair da partida com a sensação de que ela foi divertida, mas acho que André tocou em alguns pontos vitais. Se cada jogador se preocupasse mais em interpretar, o entrosamento na mesa seria maior e cada um teria oportunidade de “ter seus 15 minutos de fama”. Acho que falta um pouco isso nas aventuras em que participo. Entender que RPG é cooperativo é um dos passos para uma imersão maior e até, quem sabe, maior diversão.

  5. Excelente post! É o tipo de tema que estava precisando alguém abordar! Eu tenho meus dois pitacos para dar.
    Gosto muito da abordagem que encara o RPG como um ato de exploração. Acho que a pergunta geral do jogo é: dada uma situação imaginária, que é instável, como ela se desenrola? A situação – seja um exército invadindo um país, uma princesa raptada, um baile de formatura, um jantar em família ou uma dúvida existencial – evolui dentro dos parâmetros do sistema, o que geralmente significa que personagens tomam atitudes capazes de alterá-la, e o divertido do jogo é justamente ver o que vai acontecer. Observe que situações podem ser sugeridas pelo livro, mas no fim das contas elas são trazidas para o jogo através dos participantes, mestre e jogadores, conforme suas próprias agendas criativas. O lance é que muitas vezes, as situações exploradas são internas ao personagem. Assim como não sabemos o desfecho da batalha e vamos descobrir jogando, muitas vezes não sabemos bem como esse personagem que nos propomos a interpretar é de fato, e isso também é algo a ser descoberto ao longo do jogo. Acho muito difícil, senão impossível, que, ao criar um personagem, o jogador já tenha uma ideia precisa de como ele será. É preciso “calçar os sapatos” dele e experimentar dar alguns passos. Enquanto fazemos isso, situações imprevistas acontecem no enredo (e isso é parte do jogo), e daí somos capaz de experimentar como aquele personagem se coloca diante daquilo (e isso também é parte do jogo), e daí reagimos, fazemos ajustes, e até mudanças em relação à nossa ideia original de personagem (e, é claro, isso também é parte da diversão). Essas mudanças podem ser colocadas como uma mudança real pela qual o personagem passou, dentro do enredo, ou pode ser encarada apenas como um refinamento de uma conceito inicial que era vago, e que precisaria mesmo de ser “posto a prova”. Estou falando de ajustes que podem ser de personalidade do personagem, de motivação dele, de ligações com o mundo (“Acho que seria legal se meu personagem conhecesse alguém no submundo dessa cidade!”), e também, porque não, do ponto de vista tático (“Acho que eu vou ser mais efetivo em combate se eu largar mão de ficar atirando flechas de longe e partir para a linha de frente!”). Felizmente, muitos jogos novos estão mais do que abertos a esse refinamento dos personagens, chegando mesmo a estimular isso como parte da criação coletiva. Os jogos baseados no Apocalypse World fazem isso muito bem (o movimento “Conhecimendo de Bardo” é um bom exemplo). O Este Corpo Mortal também embute o conceito no sistema, com suas fichas de magia que podem ser gastas para criar poderes para o personagem on-the-fly.
    Enfim, me parece contra-produtivo é esperar que o personagem criado no começo da sessão permaneça exatamente o mesmo até o fim dela. O que me parece mais problemático é que haja uma diferença muito grande entre as expectativas que mestre e jogador tem do mesmo personagem. Não vejo isso como uma falta de habilidade do jogador em interpretar, e sim como um conflito de agendas criativas. E, se o sistema não estiver dando conta, é coisa para se resolver com conversa, negociação e jogo-de-cintura.

  6. Olha, eu não curto Atuar, acho(sem certeza, não estou afirmando que é) que tem um prazer pra quem tem gosto por teatro, cinema e arte.

    Eu curto D&D 3.5 pra ser exato, jogo só se tiver um tabuleiro gigante, costumo ser Neutro Puro, e jogar com ladinos ou combatentes, adoro a diversidades de regras, gosto da matriz de combate, curto a movimentação.
    “Interajo” com o cenário com o que pus na ficha, se o personagem não condiz com ficar investigando logo fazer isso não seria interpretar o personagem, adoro as batalhas e me divirto muito apenas fazendo isso.

    Isso é RPG? ou é outra coisa que não seja RPG?

    Pois pela minha pesquisa na internet o que eu estou entendendo, RPG é só se meu personagem agir sempre interagindo com todo cenário(mesmo que não seja de sua índole), sendo curioso e metido nas coisas, desconfiado, presunçoso, questionador e seguir todas pequenas dicas que aparecem ate de forma leviana.

    Que apenas as regras é para ajudar a eu atuar o papel do meu personagem, como se eu estivesse no teatro, ou como se eu fosse uma criança brincando de “faz de conta”, ou como ler um livro, e que os dados e regras são só pra dar suporte algumas vezes, que sem a atuação o jogo não é RPG é outra coisa, então por favor, o que é que eu quero jogar, como se define um jogo de RPG que apenas se tem encontros, pouca narrativa e muito uso das regras?

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