Quando falamos de Stephen King, logo pensamos em terror psicológico, monstros sobrenaturais e cidades pequenas do Maine que escondem segredos terríveis. Mas o que muita gente ainda não percebeu completamente é que quase todas as suas histórias acontecem no mesmo universo ficcional. Não é apenas um conjunto de livros independentes: é um multiverso vivo, orgânico e assustadoramente coerente que os fãs chamam carinhosamente de Kingverso ou, em inglês, “Stephen King Multiverse”. A ideia central é simples e genial: todas (ou quase todas) as obras de King estão conectadas por fios invisíveis, às vezes grossos, às vezes tão finos que só os leitores mais obsessivos percebem. Personagens aparecem em livros diferentes, lugares se repetem, objetos amaldiçoados viajam de história em história e, acima de tudo, existe uma cosmologia própria que explica o mal, o bem e o equilíbrio precário entre os dois. Vamos conhecer um pouco mais sobre esse Multiverso do Terror e seus personagens.
O centro de tudo: Derry e Castle Rock
Duas cidades do Maine funcionam como corações pulsantes do Kingverso: Derry e Castle Rock. Derry é o lar da Coisa (It), o palhaço Pennywise não é apenas uma entidade que se alimenta de medo infantil; ele é uma das formas de uma criatura cósmica antiga, possivelmente ligada ao Deadlights e ao Macroverse. Deadlights (“luzes mortas”, em uma tradução literal) são a verdadeira forma de It — a entidade que toma a forma de Pennywise em Derry. Duas cidades do Maine funcionam como corações pulsantes do Kingverso: Derry e Castle Rock. Derry é o lar da Coisa (It), o palhaço Pennywise não é apenas uma entidade que se alimenta de medo infantil; ele é uma das formas de uma criatura cósmica antiga, possivelmente ligada ao Deadlights e ao Macroverse. Deadlights (“luzes mortas”, em uma tradução literal) são a verdadeira forma de It — a entidade que toma a forma de Pennywise em Derry. São esferas alaranjadas e giratórias, cheias de cores impossíveis, que contêm o verdadeiro ser de It. Os Deadlights são o seu corpo verdadeiro — uma pequena porção desse caos primordial que conseguiu rastejar para dentro do nosso universo através de um buraco que abriu perto do que viria a ser Derry milhões de anos atrás (provavelmente quando um meteoro ou algo caiu ali na pré-história). Por isso It é tão antigo e tão poderoso: ele não é “de” nenhum mundo específico. É um pedaço do vazio de antes da criação que aprendeu a se alimentar de medo e a tomar formas que aterrorizam crianças.

Macroverse (ou Macrocosmo) é o “espaço” fora de todos os universos, o vazio primordial onde as coisas realmente grandes acontecem. É o lugar de onde It veio. É o mesmo espaço chamado de Todash Darkness em A Torre Negra: o escuro entre os mundos, cheio de monstros e rachaduras na realidade. É literalmente o “lado de fora” da Torre Negra: o Prim antes de Gan cantar a criação, o mesmo caos que o Rei Rubro quer trazer de volta.
Curiosamente, personagens de outros livros passaram por Derry e sentiram que algo estava errado ali. Em 11/22/63, Jake Epping visita a cidade e percebe um cheiro podre no ar e uma sensação de opressão que só quem leu It entende perfeitamente. Em Insônia, Ralph Roberts vê auras estranhas que remetem ao mesmo tipo de energia que Pennywise manipula.
Castle Rock, por sua vez, é quase um personagem por si só. Aparece em A Metade Negra, A Zona Morta, Cujo, A Loja de Artesanato (Needful Things), O Corpo (parte de As Quatro Estações) e é mencionada em dezenas de outras obras. A cidade parece atrair tragédia como um ímã. O xerife Alan Pangborn, que aparece em A Loja e em A Metade Negra, é um dos poucos que tentam segurar as pontas enquanto o mal vai se acumulando.

A Torre Negra: a espinha dorsal do multiverso
Se Derry e Castle Rock são o coração, A Torre Negra é o esqueleto que sustenta tudo. A saga de sete (mais um) livros conta a jornada de Roland Deschain, o último pistoleiro, em busca da Torre Negra, o eixo que segura todos os mundos juntos. King deixa claro, especialmente a partir do quarto volume, Mago e Vidro, que a Torre não protege apenas o mundo de Roland (o Mundo Médio), mas TODOS os mundos, incluindo o nosso e todos os outros em que suas histórias se passam.
É aí que a coisa fica alucinante: o próprio Stephen King existe dentro do universo da Torre. Em Canção de Susannah e O Livro dos Sete, Roland e seus amigos viajam para o nosso mundo, para o Maine real dos anos 70 e 90, e encontram o escritor Stephen King como um personagem. Ele é descrito como um “condutor” imperfeito que escreve as aventuras deles quase sem querer. Isso transforma toda a obra do autor em uma espécie de metalinguagem aterrorizante: os livros que você está lendo são, dentro do próprio universo, artefatos que ajudam a salvar ou destruir a realidade.

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Conexões que explodem a cabeça
Algumas conexões são óbvias, outras exigem atenção de detetive:
- O padre Callahan, de Salem’s Lot (1975), morre enfrentando vampiros… e reaparece em A Torre Negra, décadas depois na cronologia de publicação, como um homem marcado e exilado que se junta ao ka-tet de Roland.
- Os “low men” de yellow coat (homens baixos de casaco amarelo) que aparecem em Corações na Atlântida são os mesmos Can-toi que servem o Rei Rubro em A Torre Negra.
- Patrick Danville, uma criança com poderes artísticos mencionada em Insônia (1994), torna-se crucial no último livro da Torre Negra (2004), salvando a vida de um personagem importante com um desenho.
- O Overlook Hotel de O Iluminado não foi completamente destruido. Suas energias malignas reaparecem em outros livros, e há quem diga que o próprio hotel é um dos muitos “pontos finos” entre os mundos, assim como a roseira em Nova York ou a porta em Lovell, Maine.
- A Prisão de Shawshank (Um Sonho de Liberdade) e Asilo Juniper Hill (vários livros) existem no mesmo Maine de Castle Rock e Derry.
- Até mesmo Carrie, que parece isolada, tem conexões sutis: em A Hora do Vampiro, Ben Mears menciona ter ouvido falar de uma garota em Chamberlain que “fez chover pedras” anos atrás.
Os grandes jogadores cósmicos
No coração do Kingverso, o terror deixa de ser local e se torna cósmico. Por trás de todos os palhaços, vampiros, hotéis assombrados e cidades amaldiçoadas existe uma guerra silenciosa que atravessa mundos inteiros, e nessa guerra atuam entidades tão antigas e vastas que fazem Pennywise parecer apenas uma formiga raivosa.
A realidade, segundo a mitologia que Stephen King construiu ao longo de cinco décadas, não surgiu do nada. Ela foi cantada à existência por Gan, uma força criadora benevolente, quase um deus amoroso, mas distante. Gan é o sopro de vida que gerou todos os universos e, no centro deles, ergueu a Torre Negra: uma estrutura imensa, feita de luz e escuridão entrelaçadas, que mantém cada mundo, cada quando e cada onde no seu devido lugar. Pense na Torre como o eixo de uma roda gigantesca; se ela cair, tudo cai junto.
Oposto a Gan está o Rei Rubro, também chamado de Crimson King, o grande antagonista de toda a obra. Ele é o caos primordial que existia antes da canção de Gan, uma entidade de pura destruição que odeia a ordem e a beleza da criação. Seu único objetivo é derrubar a Torre Negra e devolver tudo ao Prim, o vazio fervilhante de onde tudo veio e onde nada mais terá forma ou sentido. Louco, infantil e terrivelmente poderoso, o Rei Rubro já foi um ser quase divino, mas enlouqueceu de ódio e agora comanda exércitos de monstros, vampiros, homens baixos de casaco amarelo e Breakers – humanos com poderes psíquicos que ele sequestra para quebrar os Feixes que sustentam a Torre. Esses Feixes são seis grandes raios de energia que partem da Torre e atravessam a existência infinita. Cada Feixe é protegido por dois Guardiões animais, criaturas imortais e benevolentes. Uma delas todos nós conhecemos: Maturin, a tartaruga gigante. Sim, a mesma tartaruga que Bill Denbrough encontra no vazio cósmico durante o Ritual de Chüd em It. Maturin é um dos doze Guardiões, guardião do Feixe que passa pelo mundo de Derry. Quando os Perdedores derrotam Pennywise em 1958, eles estão, sem saber, protegendo o Feixe de Maturin e adiando os planos do Rei Rubro. Infelizmente, a tartaruga já está morta quando Roland chega ao fim da jornada – o Rei Rubro a matou, como matou quase todos os outros Guardiões.
E quem faz o trabalho sujo do Rei Rubro na maioria dos livros? Randall Flagg, o eterno sorridente de terno preto, também conhecido como Walter o’Dim, o Homem de Preto, o Walkin’ Dude, Legion, Nyarlathotep do Maine. Flagg é um demônio quase imortal, agente do caos, que aparece com nomes e rostos diferentes em A Torre Negra, A Dança da Morte, Os Olhos do Dragão e pelo menos meia dúzia de outras obras. Ele seduz, corrompe, organiza exércitos e sempre deixa um rastro de fogo e morte. É o braço direito do Rei Rubro no plano mortal, o sorriso que você vê antes do mundo acabar. Essas quatro forças – Gan, a Torre, o Rei Rubro e seus servos como Flagg, mais os Guardiões já quase extintos – são o verdadeiro pano de fundo de quase todas as histórias de Stephen King. O palhaço de Derry, os vampiros de ‘Salem’s Lot, o Overlook Hotel, até o Plymouth Fury de Christine: todos, de alguma forma, são peões ou ecos dessa guerra cósmica. Quando você entende isso, percebe que cada livro de terror que parece isolado na verdade é apenas mais uma batalha no mesmo campo de batalha infinito. E a Torre ainda está de pé… por enquanto.
Por que o Kingverso é tão especial?
Porque ele não foi planejado de forma rígida como o MCU ou o Universo DC. Ele cresceu de forma orgânica durante cinquenta anos. King simplesmente gostava de revisitar lugares e ideias. Quando percebeu que estava criando um universo compartilhado, abraçou a ideia e transformou isso na própria mitologia da Torre Negra. O resultado é um multiverso que parece vivo, bagunçado, cheio de becos sem saída e portas entreabertas, exatamente como a realidade. Não há wiki oficial perfeita, porque até o próprio King já disse que “às vezes esquece o que escreveu” e que o leitor tem liberdade para montar as peças como quiser. E talvez seja essa a grande magia: o Kingverso não é um mapa pronto. É um labirinto que cresce a cada novo livro, conto ou adaptação. E enquanto houver alguém lendo dois livros de Stephen King e percebendo que “espera aí… isso aqui tá conectado!”, a Torre continua de pé. E isso, meus caros, é mais assustador do que qualquer palhaço dançando nas sombras de Derry.
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