Realidades Alternativas No RPG.


Universos alternativos e realidades paralelas sempre foram um tema fascinante tanto nos quadrinhos quanto no cinema, e os RPGs de mesa não poderia ficar fora dessa. Enquanto alguns RPGs, como o Marvel Multiverse Roleplaying Game, já trazem essa abordagem de forma explícita, oferecendo aos jogadores a chance de explorar diferentes Terras e versões de heróis, o conceito pode ser expandido para uma maior quantidade de sistemas e cenários, criando campanhas diferentes e criativas.

Universos paralelos são realidades alternativas que existem separadamente da nossa, mas que podem coexistir com ela. A ideia de universos paralelos pode ser encontrada tanto na ficção como na ciência. A teoria dos universos paralelos é uma interpretação de muitos mundos, que postula que cada resultado possível de um experimento quântico ocorre em um multiverso paralelo. A teoria foi desenvolvida pelo físico Hugh Everett na década de 1950. O físico Stephen Hawking também apontou que o nosso Universo pode ser apenas um de muitos outros parecidos com ele.

Neste artigo, vamos explorar como você pode usar universos alternativos em RPGs que, a princípio, não foram feitos para isso, mas que possuem potencial com um Narrador criativo. Vamos discutir a importância de introduzir esse elemento na sua narrativa, como adaptar diferentes sistemas, e apresentar exemplos práticos para você se inspirar e criar aventuras únicas.

Inspiração para este artigo

Um dos motivos que me fez imaginar como seria o uso de realidades paralelas em sistemas de RPG foi o já supra citado Marvel Multiverse Roleplaying Game. Além do motivo estar no próprio nome deste RPG há também o fato da Marvel explorar bastante o conceito, inclusive com uma saga em quadrinhos chamada Infinity Wars, onde a realidade é totalmente manipulada pelo uso da Jóia da Realidade.

Para quem não sabe, ou não acompanhou a saga do Universo Cinematográfico Marvel (MCU), que levou ao filme Vingadores: Ultimato, a Joia da Realidade, uma das Joias do Infinito das HQs da Marvel, tem o poder de alterar a realidade em uma escala inimaginável. Com ela, o usuário pode manipular as leis da física, criar e apagar coisas da existência, transformar desejos em realidade e até reescrever eventos históricos. Em essência, permite fazer o impossível se tornar possível.

Entre seus poderes estão:

Alteração da Realidade: Permite ao portador mudar qualquer aspecto da realidade, mesmo que seja algo contrário às leis da natureza.

Manipulação de Matéria e Energia: Pode criar objetos do nada ou desintegrá-los.

Rescrita da História: Capaz de alterar acontecimentos passados e mudar o curso da história.

Criação de Universos Paralelos: Permite criar novas realidades ou acessar universos alternativos.

Originalmente, a Joia da Realidade esteve nas mãos de diversos personagens, como o Colecionador e Adam Warlock. Este ultimo inclusive, foi um dos portadores mais notáveis, especialmente durante a saga do Desafio Infinito, onde ele usou a Joia para tentar manter o equilíbrio do universo.

Infinity Wars

Infinity Wars é uma saga em quadrinhos da Marvel publicada em 2018, que serve como continuação direta das histórias anteriores relacionadas às Joias do Infinito e traz grandes reviravoltas, novos personagens, e uma fusão inusitada de heróis e vilões. A trama foi escrita por Gerry Duggan, com arte de Mike Deodato Jr., e explora o caos gerado pela manipulação das Joias e a ganância de quem deseja controlá-las.

Contexto e Início

Após eventos anteriores envolvendo as Joias do Infinito, os heróis da Marvel decidem reunir as Joias mais uma vez para evitar que caiam em mãos erradas. Cada Joia do Infinito possui um portador inicial:

  1. Joia da Alma – Adam Warlock
  2. Joia da Mente – Turk Barrett (um criminoso menor)
  3. Joia da Realidade – Capitã Marvel
  4. Joia do Espaço – Viúva Negra
  5. Joia do Tempo – Doutor Estranho
  6. Joia do Poder – Star-Lord (dos Guardiões da Galáxia)

Os heróis percebem que precisam se unir para proteger as Joias, pois há uma nova ameaça surgindo: Requiem, uma figura misteriosa que surge para desafiar o poder das Joias.

Requiem se revela a nova identidade de Gamora, que está em busca das Joias para cumprir seu objetivo pessoal: reunir sua própria alma fragmentada, que foi aprisionada dentro da Joia da Alma. Gamora, corrompida pelo desejo de poder e consumida pela ambição, mata Star-Lord e consegue tomar posse das Joias.

Com o poder das seis Joias em suas mãos, Gamora decide criar uma nova realidade. Ela distorce o tecido do universo e funde os heróis clássicos, criando versões combinadas e bizarras, que vivem em uma nova realidade chamada de Warpverse. Essas novas versões dos personagens têm histórias próprias, explorando tanto as características dos heróis originais quanto novas interações que surgem dessa fusão. A proposta do Warpverse oferece aos leitores uma visão criativa e alternativa do universo Marvel, brincando com a ideia de “E se…” e oferecendo novos desafios e narrativas para os personagens.

Alguns exemplos incluem:

  • Soldado Supremo: Fusão do Capitão América com o Doutor Estranho.
  • Martelo de Ferro: Fusão do Homem de Ferro com Thor.
  • Arma Bruxa: Fusão da X-23 (Laura Kinney) com a Feiticeira Escarlate.
  • Arachknight: Fusão do Homem-Aranha com o Cavaleiro da Lua.

Os sobreviventes, que não foram fundidos, como Loki, Adam Warlock e os Guardiões da Galáxia, percebem o que Gamora fez e se unem para tentar reverter a fusão da realidade. Loki, em particular, tem interesse nas Joias e tenta manipular os eventos para seus próprios objetivos.

Essas versões “warped” dos personagens não têm consciência de suas origens e vivem suas vidas como se sempre tivessem existido assim.

Durante o confronto final, Gamora começa a perceber que o poder das Joias não a trouxe a paz que ela esperava e que a fusão do universo causou mais caos do que harmonia.

Conclusão e Consequências

No clímax da história, Adam Warlock consegue convencer Gamora a desfazer a fusão e restaurar o universo ao seu estado original. No entanto, as Joias do Infinito são dispersas novamente e adquirem consciência própria, decidindo que não serão mais meros objetos de poder para serem usados por mortais. As Joias desaparecem e se tornam “protetoras” de diferentes portadores pelo universo.

Principais Consequências:

  • Gamora é redimida parcialmente, mas continua lidando com a culpa e o arrependimento por suas ações.
  • Loki descobre segredos importantes sobre o multiverso e a existência de um universo superior, o que o coloca em uma nova jornada.
  • Os heróis fusionados, como Soldado Supremo e Martelo de Ferro, aparecem em minisséries próprias para explorar suas histórias únicas antes de serem desfeitos.
  • A consciência das Joias sugere que elas não podem mais ser controladas como antes, mudando completamente o status quo do universo Marvel em relação a elas.

Depois disso passei a imaginar como seria possível transportar a ideia de universos alternativos para outros RPGs, mesmo que isso não esteja na descrição do cenário, ou nem mesmo citado como exemplo de ideias de aventuras. Vamos então exercitar a mente.

Por Que Usar Universos Alternativos em Seus Jogos?

Universos alternativos são uma excelente maneira de explorar o “e se?” em seus jogos. Eles permitem:

Novas Experiências: Jogadores podem experimentar personagens em contextos totalmente diferentes. E se o herói fosse um vilão? E se a cidade estivesse em ruínas?

Flexibilidade Criativa: O mestre pode introduzir elementos fantásticos ou anárquicos, sem precisar se preocupar com a consistência do cenário principal.

Exploração de Temas: Universos paralelos permitem explorar temas como destino, escolhas e consequências em um nível mais profundo.

Como Criar Universos Alternativos em Diferentes Sistemas

Nem todo RPG de mesa tem universos paralelos como parte central de sua narrativa, mas quase todos podem ser adaptados para incluir essa temática. Vamos ver como fazer isso em alguns cenários populares e em sistemas mais genéricos.

Dungeons & Dragons: Mundos Paralelos de Alta Fantasia

Em D&D, o conceito de universos alternativos pode ser facilmente inserido como planos de existência, um conceito já presente nas regras. No entanto, você pode ir além e criar realidades alternativas dentro de um mesmo plano. Algumas ideias incluem:

  • Reinos Espelhados: Uma versão sombria de Faerûn, onde os heróis são tiranos, e os vilões são rebeldes lutando pela liberdade.
  • O Mundo dos Sonhos: Uma realidade onde o tempo e o espaço são fluidos, e as regras de magia e física são diferentes.
  • Versão Tecnológica: E se Forgotten Realms estivesse na era do vapor, com máquinas movidas a mágica e navios voadores cruzando os céus?

Use o conceito de magia selvagem para justificar as transições entre mundos. Um artefato poderoso ou uma falha planar pode criar portais entre realidades.

Vampiro: A Máscara – O Mundo das Trevas Reescrito

Antes que alguém diga que Vampiro: O Réquiem já é um universo alternativo de Vampiro: A Máscara, quero lembrar que podemos criar algo a partir do cenário original de maneira própria. O universo de Vampiro: A Máscara já é sombrio e cheio de mistérios, mas criar uma realidade paralela pode adicionar um toque de surrealismo e tensão à campanha. Ideias de universos alternativos poderiam ser:

  • Mundo Pós-Gehenna: Uma realidade onde a Gehenna aconteceu e os Antediluvianos governam abertamente, transformando o mundo em um regime de terror, inclusive caçando vampiros neófitos.
  • A Inquisição Venceu: E se a Segunda Inquisição tivesse exterminado quase todos os vampiros? Os poucos sobreviventes se escondem e são caçados incessantemente. E se esses vampiros fossem Sangue-Fracos, sem capacidade de criar outros vampiros para lhe ajudarem?
  • Sabá Vitorioso: Uma versão distorcida do mundo, onde a Máscara foi abolida e as cidades são controladas abertamente pelos vampiros do Sabá, com os Bispos e Arcebispos governando como senhores feudais.

Introduza o conceito de ilusões ou delírios, fazendo os jogadores questionarem a realidade. Um NPC pode ser o mesmo em ambas as realidades, mas com motivações opostas, criando conflito e confusão.

GURPS: Explorando o Infiniverso

GURPS é o sistema perfeito para campanhas de universos alternativos, graças à sua flexibilidade e modularidade. A própria linha de suplementos “GURPS Infinite Worlds” oferece uma estrutura para viagens entre diferentes realidades.

  • Cenários de História Alternativa: Explore versões da Terra onde eventos históricos ocorreram de maneira diferente, como uma realidade onde o Império Romano nunca caiu ou onde os dinossauros ainda governam o planeta.
  • Realidades de Fantasia Urbana: Crie versões de cidades modernas onde magia e tecnologia coexistem de formas variadas.
  • Universos Distópicos: Leve os personagens para uma realidade cyberpunk ou pós-apocalíptica, e veja como eles reagem fora de seu contexto normal.

Use o suplemento “GURPS Time Travel” para adicionar um toque de viagem temporal às suas aventuras, misturando universos paralelos com diferentes linhas do tempo.

Alien RPG: Pesadelos Além da Realidade

A franquia Alien do cinema tem vivido uma renivação de suas ideias e muito pode ser criado a partir disto, principalmente quando chegar no próximo ano a série de TV “Alien: Earth”. Em um cenário de horror espacial como Alien RPG, a introdução de universos alternativos pode elevar o terror a novos níveis. Imagine os personagens descobrindo após acordarem da criogenia o mundo que conheciam não é mais o mesmo e que talvez ninguém conheça eles e acorporação a qual trabalhavam não existe mais.

  • Dimensões Espaciais: A nave dos personagens passou por uma distorção temporal e os leva a um mundo tipo Arrakis só que ao invés de Vermes de Areia o deserto é cheio de xenomorfos.
  • Tecnologia Alienígena: Artefatos alienígenas que dobram a realidade, criando versões espelhadas ou distorcidas de estações espaciais e planetas.
  • Futuro Alternativo: Uma versão do universo onde a Companhia venceu e transformou os xenomorfos em armas controláveis, mudando drasticamente o equilíbrio de poder.

Crie um clima de paranoia, fazendo os jogadores questionarem se eles ainda estão na realidade original ou se foram transportados para um universo alternativo sem perceberem.

Chamado de Cthulhu: Horror em Realidades Paralelas

Em Chamado de Cthulhu, a ideia de universos alternativos se encaixa perfeitamente, pois o horror cósmico de H.P. Lovecraft frequentemente envolve dimensões desconhecidas e realidades além da nossa compreensão. Universos alternativos podem ser introduzidos como reflexos distorcidos da realidade, controlados por entidades alienígenas ou influenciados por forças sobrenaturais.

  • A Terra dos Sonhos Corrompida: Os personagens se veem presos em uma versão distorcida da Terra dos Sonhos, onde as paisagens são grotescas e os sonhos se tornaram pesadelos vivos. Aqui, os Grandes Antigos dominam abertamente e a realidade é maleável, mudando conforme os medos dos jogadores.
  • O Universo dos Sem-Deus: Uma realidade onde os mitos de Cthulhu nunca existiram, mas o vazio da ausência dessas entidades levou a humanidade à loucura. Aqui, cultistas desesperados tentam invocar os Grandes Antigos para preencher o vazio existencial, criando uma situação perigosa e imprevisível para os jogadores.
  • Mundo Pós-Colapso: Uma versão da Terra onde os cultistas tiveram sucesso em despertar Cthulhu ou outra entidade cósmica. A civilização caiu e os poucos sobreviventes vivem em ruínas, tentando evitar os monstros que agora governam o planeta.

Faça pequenas mudanças no ambiente, como o céu sendo de uma cor impossível ou os relógios marcando horas inexistentes, para criar uma sensação de estranheza e desconforto. Os jogadores devem sempre se perguntar se estão na realidade original ou em uma versão distorcida. Use visões e sonhos para confundir e enganar os personagens.

Dicas para Narradores: Como Conduzir Campanhas com Universos Alternativos

O Narrador pode optar por sonegar a informação que a aventura/campanha será jogada em um universo alternativo ou deixar claro desde o início. De qualquer forma surpresas e plot twists na trama são a melhor ferramenta para este tipo de sessão dar certo. Mais algumas dicas:


Semeie Indícios: Dê pistas sutis antes de revelar que os jogadores estão em uma realidade paralela. Detalhes que parecem pequenos, mas não fazem sentido, são um bom começo.

Impacto nas Escolhas dos Jogadores: Mostre como as escolhas dos personagens na realidade original afetaram o universo alternativo. Talvez uma decisão no passado criou uma distopia nesta nova realidade.

Dê Contexto: Certifique-se de que os jogadores entendam a diferença entre o universo original e o alternativo. Mantenha consistência para que a experiência seja imersiva.

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