Mark Millar é conhecido por criar quadrinhos com histórias ousadas e subversivas, explorando uma abordagem única sobre super-heróis e suas contradições. Já tive a oportunidade de resenhar várias de suas obras neste blog, entre elas Legado de Júpiter, Os Embaixadores, A Ordem Mágica, Prodigy e Night Club. Nesses trabalhos, Millar sempre procurou subverter os conceitos tradicionais dos heróis, explorando questões morais complexas, versões mais violentas e até cínicas dos personagens que já conhecemos.
Com Nêmesis, Millar decidiu inverter a fórmula e focar em um supervilão, justamente por acreditar que havia um terreno inexplorado em destacar antagonistas. Ele foi inspirado pelo sucesso de filmes como O Cavaleiro das Trevas, de Christopher Nolan, onde o Coringa roubou a cena. Millar notou que o público se interessava muito por personagens caóticos e imprevisíveis, que, segundo ele, são mais intrigantes do que heróis convencionais. Esse insight o levou a criar Nêmesis, uma espécie de “anti-Batman”, mas que em vez de lutar contra o crime, usa sua inteligência e recursos para semear caos e destruição.
A escolha de Millar por desenvolver um supervilão reflete seu interesse em explorar o lado sombrio das histórias em quadrinhos, oferecendo uma perspectiva diferente que desafia o público a simpatizar, ou pelo menos se fascinar, com personagens moralmente duvidosos.
Enredo e Premissa
Em “Nêmesis”, Millar nos apresenta um vilão enigmático e impiedoso que parece ter um único objetivo: destruir a vida do melhor policial de cada cidade em que passa. Dessa vez, o alvo é Blake Morrow, o chefe de polícia de Washington, D.C., um homem íntegro e incorruptível. A trama se desenrola como um jogo de gato e rato, onde Nêmesis orquestra uma série de ataques e manipulações, fazendo o leitor questionar se o bem realmente triunfará sobre o mal.
A genialidade de Millar está na subversão das expectativas. Ele pega a premissa do “gênio bilionário mascarado” e a vira de cabeça para baixo, criando um personagem cujo único propósito é o caos e a vingança. Nêmesis é uma força da natureza, um vilão que mistura a inteligência e os recursos de Bruce Wayne com a psicopatia e imprevisibilidade do Coringa.
Arte de Steve McNiven
A arte de Steve McNiven é um espetáculo à parte. Ele já havia trabalhado com Millar em “Guerra Civil”, e aqui, novamente, sua habilidade de criar cenas dinâmicas e visceralmente impactantes está em pleno vigor. Desde explosões cinematográficas até momentos de pura brutalidade, McNiven captura o tom sombrio e exagerado da história. O design do personagem Nêmesis, com seu uniforme branco e máscara, é elegante e ameaçador, contrastando perfeitamente com a carnificina que ele provoca.
As cenas de ação são exageradas e repletas de detalhes, reforçando a ideia de que estamos lendo algo grande e explosivo, como se fosse um blockbuster de verão transformado em quadrinhos. Cada página transborda energia, e o ritmo frenético da narrativa é impulsionado pelo trabalho visual de McNiven. Aliás essa é uma marca das narrativas de Millar que os artistas que trabalham com ele sabem explorar com maestria. As histórias parecem feitas para serem transportadas para as telas de TV ou do cinema.
Temas e Controvérsias
“Nêmesis” não é uma HQ que busca agradar a todos. Ela é excessivamente violenta e propositalmente provocadora. Millar explora a ideia de um mundo onde o maior pesadelo da sociedade não é um supervilão com superpoderes, mas alguém com recursos ilimitados e nenhuma moralidade. A história é uma crítica ao culto do herói bilionário, levantando a questão: o que impede alguém como Bruce Wayne de usar seus recursos para o mal?
No entanto, a obra não escapa de algumas críticas. Muitos leitores apontam que o roteiro, apesar de divertido, carece de profundidade. Nêmesis é um personagem fascinante, mas sua motivação parece rasa e superficial, focando apenas no choque e na violência pela violência. Além disso, a narrativa segue um formato previsível, onde as reviravoltas são tão exageradas que, em alguns momentos, desafiam a suspensão da descrença. Aliás esse é uma crítica que acontece em algumas obras de Millar, onde a plot twist se torna exagerado e as vezes sem sentido no roteiro, tentando apenas criar uma grande surpresa.
Veredito Final
“Nêmesis” é uma leitura obrigatória para fãs de Mark Millar e de quadrinhos que fogem da fórmula tradicional de heróis. É uma história ousada, cínica e ultraviolenta que não pede desculpas por suas escolhas. Para quem procura algo diferente e está disposto a embarcar em uma montanha-russa de ação e tensão, “Nêmesis” é uma ótima pedida.
Entretanto, é importante avisar: esta não é uma HQ para quem se incomoda com violência gráfica ou temas sombrios. Millar entrega uma narrativa crua e, em alguns momentos, difícil de digerir, mas para aqueles que apreciam sua abordagem provocadora e sua habilidade de subverter clichês, “Nêmesis” é uma joia perversa e brilhante no mundo dos quadrinhos.
Se você é fã de histórias que questionam os arquétipos de heróis e vilões e gosta de ver o caos se desenrolar sem freios, “Nêmesis” é um prato cheio. Mas esteja preparado: esta HQ não vai te deixar confortável – e esse é exatamente o ponto de Millar.
A HQ tem 116 páginas, em capa dura, reunindo todas as 4 edições. Nêmesis pode ser adquirido na Amazon com preço sugerido de R$34,90 clicando AQUI.
NO RPG
Adaptar Nêmesis de Mark Millar para um RPG de mesa oferece uma oportunidade de criar uma experiência intensa e cheia de reviravoltas, focando em um vilão superpoderoso contra os personagens dos jogadores que seriam heróis ou agentes da lei. O tema central da história, onde o protagonista é um antagonista brutal e calculista, é perfeito para jogos que irão testar as habilidades dos personagens e a estratégia dos jogadores para derrotar o vilão.
Sugestões de Sistemas para Adaptação
- GURPS Supers: O sistema GURPS é conhecido por sua flexibilidade e realismo, e o módulo GURPS Supers oferece uma ótima base para criar tanto personagens heróis quanto vilões com poderes. Com ele, você poderia construir um personagem com habilidades semelhantes às de Nêmesis, focando em perícias de combate, táticas e alta inteligência que seria o antagonista da história, enquanto os jogadores fariam personagens que tentam evitar seus crimes. O cenário poderia incluir uma série de missões de sabotagem, perseguição e batalhas contra forças policiais ou heróis.
- Mutantes & Malfeitores: Esse sistema é amplamente utilizado para campanhas de super-heróis, mas sua flexibilidade permite a criação de antagonistas complexos. Aqui, você poderia criar uma campanha onde o grupo de jogadores precisa enfrentar um vilão como Nêmesis, que possui recursos ilimitados e inteligência estratégica superior. Outra opção é permitir que os jogadores sejam cúmplices do vilão, ajudando em seus esquemas contra autoridades e heróis locais.
- Savage Worlds – Compêndio de Superpoderes: Savage Worlds oferece um sistema rápido e focado em ação, ideal para campanhas intensas e cheias de combate, como nas histórias de mark Millar. O suplemento Compêndio de Superpoderes possibilita criar personagens com habilidades extraordinárias, e seria uma ótima escolha para adaptar a ação caótica e explosiva de Nêmesis. A narrativa poderia girar em torno das consequências das ações destrutivas do vilão e os dilemas que os personagens enfrentam ao lidar com essa ameaça.
- Fate Core: Para grupos que preferem foco narrativo e liberdade criativa, Fate Core seria uma escolha interessante. Você pode usar aspectos para definir características-chave do vilão, como “Mente Brilhante”, “Caos Encarnado” e “Sempre um Passo à Frente”. Isso permite explorar o lado estratégico de Nêmesis e as tensões morais dos jogadores que precisam escolher entre tentar pará-lo ou aliar-se a ele.
- Night’s Black Agents: Este RPG, criado por Kenneth Hite, utiliza o sistema GUMSHOE, focado em investigação e conspiração, e é perfeito para criar uma campanha baseada em Nêmesis. O jogo permite explorar temas como espionagem, combate tático e perseguições intensas — elementos centrais da HQ. Os personagens dos jogadores são agentes especiais, ex-operativos ou mercenários contratados para deter uma figura desconhecida que está por trás de uma onda de atentados e assassinatos. A adaptação funcionaria bem no estilo de thriller, com muita investigação e ação cinematográfica.
- City of Mist: City of Mist é um RPG que combina a mitologia urbana com poderes sobrenaturais e é baseado em um sistema de regras mais narrativo. Ele oferece uma abordagem única, centrada nos “Mitos” que inspiram cada personagem, permitindo criar figuras icônicas e poderosas, algo que poderia ser usado para adaptar o conceito de um vilão maior que a vida como Nêmesis. Nêmesis poderia ser interpretado como um “Avatar” de um conceito maior, como a própria vingança ou a subversão da ordem. Isso justificaria suas habilidades sobre-humanas e o fato de ele sempre estar um passo à frente. Os jogadores podem ser heróis com poderes sobrenaturais, cujas vidas comuns são impactadas pela figura avassaladora de Nêmesis.
Estrutura de Aventura
- Introdução: Os jogadores começam como agentes da lei ou super-heróis lidando com uma série de atentados organizados por um misterioso antagonista. Esses atentados tem sempre como alvo agentes policiais ou da justiça. Aos poucos, eles descobrem que o vilão é alguém que parece saber tudo sobre eles e planeja cada movimento com precisão.
- Meio: O vilão desafia os jogadores publicamente, revelando seus planos e os forçando a agir rapidamente. Aqui, pode haver cenas de perseguição, combates estratégicos e investigação.
- Clímax: Os jogadores enfrentam o vilão em seu esconderijo, apenas para descobrir que tudo fazia parte de um plano maior. O verdadeiro confronto testa não apenas suas habilidades físicas, mas também sua moralidade.
- Conclusão: Dependendo das escolhas dos jogadores, o vilão pode ser derrotado, escapar ou até mesmo corromper um dos heróis para se tornar seu novo aliado.
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