O livro A Hora do Vampiro (originalmente Salem’s Lot), de Stephen King, é um dos marcos do autor no gênero de terror. Publicado em 1975, a história se passa na pequena cidade fictícia de Jerusalem’s Lot, ou simplesmente ‘Salem’s Lot, localizada no Maine. O enredo segue Ben Mears, um escritor que retorna à cidade onde passou parte de sua infância, para escrever sobre a misteriosa Mansão Marsten, um lugar assombrado por seu passado. Ao chegar, ele descobre que um novo morador, Kurt Barlow, se mudou para a cidade e que eventos estranhos começam a acontecer: os habitantes começam a desaparecer ou a se transformar em vampiros.
Li Salem’s Lot pela primeira vez nos anos 80, e foi o livro que me apresentou ao universo de Stephen King. A maneira como ele retratou a pequena cidade fictícia de Jerusalem’s Lot, com sua atmosfera sombria e personagens tão humanos, me marcou profundamente. A partir dessa leitura, o terror se tornou meu gênero favorito, levando-me a buscar incessantemente novos títulos e a me aprofundar cada vez mais nesse perturbador mundo que King tão brilhantemente mostrava em seus livros.
Acho que todos que leram o livro um dia sonhou que poderia ser feito um filme sobre ele, retrando em imagens aquilo que imaginávamos ao folhear as páginas que contavam a história. A primeira tentativa aconteceu em 1979, em formato de minissérie para a televisão, dirigida por Tobe Hooper, famoso por seu trabalho em O Massacre da Serra Elétrica. Essa versão foi bastante fiel ao material original e se tornou um clássico cult, principalmente pelo impacto visual do vampiro Barlow, que foi retratado de forma mais monstruosa do que no livro. Em 2004, houve uma nova tentativa de adaptação, também em formato de minissérie, estrelada por Rob Lowe no papel de Ben Mears. Apesar de tentar ser mais fiel à narrativa e aos personagens do romance de Stephen King, essa versão recebeu críticas mistas, sendo considerada por muitos inferior à adaptação de 1979.
Além dessas minisséries, Salem’s Lot também foi referenciado em outras obras, como no telefilme de 1987 A Volta a Salem’s Lot, embora esse não seja uma adaptação direta, mas uma sequência não oficial do enredo. Essas adaptações anteriores estabeleceram as bases para o mais recente filme da HBO Max, que busca modernizar a obra para um novo público, mas enfrentou desafios semelhantes ao tentar condensar a rica narrativa de Stephen King em um formato mais curto.
O Novo Filme
O filme exibido na HBO MAX, é dirigido por Gary Dauberman, e busca resgatar a atmosfera sombria e aterradora do romance original, transportando o espectador para a pequena cidade de Jerusalem’s Lot, onde o terror emerge lentamente, com o mal encarnado em vampiros. Porém, como acontece em várias adaptações de King, alguns elementos da narrativa original não foram plenamente explorados, frustando os fãs mais fiéis do autor.
A história segue Ben Mears (Lewis Pullman), um escritor que retorna à cidade onde passou parte da infância, apenas para descobrir que algo sinistro está acontecendo. À medida que investiga, Mears começa a perceber que os habitantes estão sendo transformados em vampiros sob o controle de Kurt Barlow (William Sadler), uma figura enigmática e assustadora. O filme trabalha bem o conceito de horror lento e crescente, algo característico de Stephen King, onde o medo se infiltra gradualmente até tomar conta por completo.
A direção de Dauberman é eficaz em criar uma sensação de desconforto, utilizando a ambientação claustrofóbica e o isolamento da cidade para intensificar o terror. A cinematografia é um destaque, com paletas escuras e sombras pesadas que ampliam a sensação de que algo nefasto está sempre à espreita. A música também se alinha bem a esse clima, com uma trilha sonora que mistura tons melancólicos e assustadores. O ritmo do filme, porém, é desigual, com momentos de grande tensão seguidos por cenas mais lentas, o que prejudica a imersão. Além disso, o desenvolvimento dos personagens, especialmente o protagonista Ben Mears, ficou superficial. Não conseguimos nos identificar com nenhum personagem do filme, e o motivo pelos quais eles se juntam para investigar os acontecimentos na cidade não é bem explorado, ficando uma sensação de “forçada de barra”. A construção de personagens poderia ter sido mais aprofundada. No livro, King dedica bastante tempo ao desenvolvimento dos habitantes de Salem’s Lot, criando uma teia de relações que aumenta o impacto das transformações em vampiros. No filme, essa complexidade emocional se perde um pouco, deixando os personagens secundários menos envolventes e sem personalidade.
As críticas negativas apontam para o fato de que o filme não inova no gênero e depender de clichês já estabelecidos em outras adaptações de terror. A recepção no Rotten Tomatoes reflete isso, com uma aprovação de 60% e uma nota média de 5,7/10, indicando que, apesar de algumas boas intenções, a execução pode decepcionar aqueles que esperavam uma abordagem mais original e impactante.
Diferenças Principais Entre o Livro e o Filme
Profundidade dos Personagens: Uma das maiores diferenças entre o livro e o filme está na construção dos personagens, que no filme é bastante superficial. Enquanto no livro Stephen King dedica tempo para aprofundar-se nos habitantes de Salem’s Lot, desenvolvendo uma rede complexa de histórias e relações pessoais que amplificam o impacto emocional dos eventos sobrenaturais, o filme apresenta uma abordagem mais rasa. Na adaptação, o desenvolvimento dos personagens é limitado, com pouca explicação sobre suas motivações ou a razão de estarem envolvidos na trama, o que enfraquece o vínculo emocional do público com a história.
Atmosfera de Terror: O livro constrói o terror de forma lenta e gradual, enfatizando a claustrofobia e o medo psicológico dos moradores de Salem’s Lot. No filme, há uma tentativa de capturar essa atmosfera, mas, segundo alguns críticos, o ritmo às vezes se torna inconsistente, com momentos de tensão seguidos de longas pausas que quebram o clima.
Exploração da Fé e Moralidade: No livro, o tema da fé é central, especialmente na figura do Padre Callahan, cuja crise espiritual tem grande destaque. No filme, essa trama não é tão explorada, o que enfraquece a complexidade moral de alguns personagens.
Alterações no Enredo: Embora a trama principal seja semelhante, o filme simplifica muitos elementos do livro. No romance, a cidade e sua decadência são praticamente personagens por si só, com diversos arcos que envolvem o cotidiano dos habitantes. No filme, por questões de tempo, várias subtramas foram cortadas deixando a sensação de simplicidade exagerada na história.
O Vampiro Barlow: No livro, Kurt Barlow é um vampiro altamente inteligente e manipulador, que muitas vezes prefere agir nos bastidores, além de seu servo. Já na adaptação, ele aparece mais como uma figura grotesca e monstruosa, quase uma fera apenas com instintos, uma escolha que desagradou aqueles que esperavam um vilão mais cerebral.
Essas diferenças refletem o desafio de adaptar a rica e densa narrativa de Stephen King para um formato mais compacto, onde muitos elementos sutis acabam se perdendo. E fica a frustração de mais um filme (como já havia acontecido com “A Torre Negra”) de uma obra adaptada de Stephen King ser tão fraco e sem capturar a essência da história original. Vamos ter que aguardar pela próxima tentativa.
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