Vertigo: Qual O Melhor Sistema Para Simular O Universo Das HQs?

Todo leitor de Histórias em Quadrinhos que gosta de cenários sem super-heróis usando capas e collant apertado, histórias que aborde temas adultos, com magia, criaturas sobrenaturais e fantasia urbana, já leu e curtiu muito as revistas do extinto selo Vertigo, da DC Comics.

Criado em 1993, aproveitando a esteira do sucesso da segunda fase da revista do Monstro do Pântano escrita pelo mago Alan Moore, o selo pretendia publicar histórias em quadrinhos mais pesadas e adultas para um público que cresceu lendo HQs de super-heróis mas agora queria algo diferente. Para que isso fosse possível a DC Comics decidiu contratar roteiristas britânicos que estavam fazendo sucesso com publicações independentes e revistas como 2000 AD e Crisis na Europa. Esse movimento ficou conhecido como “Invasão Britânica” e coincidiu no meio musical com a NWOBHM (Nova Onda do Heavy Metal Britânico) quando bandas de rock pesado britânicas começaram a fazer sucesso nos EUA e em todo mundo, trazendo mais peso e velocidade para as músicas e letras com temas mais variados, tirando um pouco do blues nas composições que era uma característica das bandas de hard rock dos anos 70 e 80. São símbolos desse movimento Iron Maiden, Judas Priest, Def Leppard, Saxon, Motorhead, Venon, entre tantas outras. Era uma época de transformação nas artes.

Chegaram aos EUA escritores como Neil Gaiman, Grant Morrison, Garth Ennis, John Delano e Peter Milligan, trazendo junto com eles os desenhistas Steve Dillon, Simon Bisley e John McCrea, os quais eles já haviam feito duplas em várias publicações no Reino Unido com o objetivo de transformar as histórias publicadas no mercado americano. Para coordenar o novo selo foi chamada Karen Berger, uma figura importantíssima para o sucesso da Vertigo. Foi dela a ideia de contratar Alan Moore para revitalizar a revista do Monstro do Pântano e dela também a ideia de convidar Neil Gaiman para a DC dando a ele liberdade de escolher um personagem e revitaliza-lo. O que ninguém esperava era que ele pegasse o personagem Sandman, um detetive chamado Wesley Dodds que usava uma pistola com gás do sono, e a partir dele criasse o sucesso absoluto do Senhor dos Sonhos e toda sua mitologia. Karen não gostava das histórias de super-heróis, apesar de ter feito bastante sucesso como editora da revista da Mulher-Maravilha. Ela era perfeita para a função.

Vamos lembrar que por volta desta época, final dos anos 80 início da década de 90, a DC estava passando por uma grande transformação em suas histórias devido a mega saga Crise nas Infinitas Terras, e por isso várias modificações em seus personagens originais estavam acontecendo, como a morte do Flash, o surgimento de outros Lanternas Verdes na Terra, o surgimento de um novo Robin, etc. Talvez isso justifique porque Grant Morrison também escolheu um super-herói obscuro, o Homem- Animal, e o transformou em sucesso de vendas com histórias que envolviam mais o lado psicológico e de escolhas do personagem do que combater grande vilões, fazendo anos mais tarde o mesmo com a Patrulha do Destino, outro sucesso de vendas.

Todas essas histórias iam além da batida fórmula de super-heróis combatendo super-vilões que queriam a dominação global. As histórias tinham outra pegada, muita magia, criaturas sobrenaturais vivendo no meio da sociedade humana disfarçados, os embates eram secretos, longe das manchetes de jornais, personagens com complicações psicológicas, abordagem de temas polêmicos, como uso de drogas, estupro, e em vários casos temas políticos, como as várias críticas vistas nas histórias de John Constantine ao modelo econômico inglês do neo-liberalismo empregado na Inglaterra da primeira-ministra Margareth Thatcher.

Foram vários títulos de sucesso publicados pelo selo, além dos já citados. como: Hellblazer, V de Vingança, Fábulas, Preacher, O Inescrito, Y: O Último Homem, Transmetropolitan, entre vários outros. Se é verdade que as revistas de super-heróis impulsionaram os estúdios de cinema a olharem para os fãs do gênero, também é verdade que muitos dos títulos citados acima foram parar nas telas dos cinemas ou séries nos canais de streaming. Ao time de roteiristas ingleses foram adicionados depois alguns americanos que também fizeram grande sucesso, como Brian Azarello, Warren Ellis, Rick Veitch, além de grandes artistas como Jill Thompson, David Lloyd e Frank Quitely.

Mas como tudo que um dia começa a Vertigo chegou ao seu fim. Diferente das histórias de super-heróis o qual o tempo parece não passar, nas histórias da Vertigo o tempo cobrava seu preço. Personagens envelheciam, morriam, a trama chegava ao seu desfecho, e com isso o selo acabou, para tristeza dos fãs. Apesar disso muitos fãs continuaram as histórias em suas mesas de RPG, usando as histórias da Vertigo em suas campanhas. Mas sempre fica a dúvida: Qual o melhor sistema de RPG para adaptar as histórias das HQs para a mesa de jogo? Qual conjunto de regras é o melhor para usar adaptando minha revista favorita para RPG? Vamos tentar responder.

QUAL SISTEMA?

Essa é uma discussão sem fim entre os jogadores e narradores de RPG. Cada um tem seu sistema preferido para adaptar as histórias de Vertigo e se mantêm fiel a ele. A Red Box já até tentou lançar um sistema próprio chamado Vertigo para adaptar a essência das histórias de fantasia urbana mostrado nas HQs (clique AQUI para saber mais), mas acabou desistindo antes mesmo do seu lançamento, talvez percebendo o quão difícil seria a tarefa. Aqui no blog eu já fiz várias adaptações de personagens e de histórias da Vertigo para RPG usando vários sistemas diferentes ou compartilhei outras feitas por blogs parceiros. Vejamos algumas delas:

Apesar de ter usado muito Dust Devils e Este Corpo Mortal para as adaptações descritas acima posso afirmar que cheguei a conclusão que In Nomine, principalmente se o narrador tiver o suplemento do Corporeal Player’s Guide (clique AQUI para saber mais), é muito bom para adaptar os cenários da Vertigo onde Céu e Inferno disputam as almas dos mortais, como Preacher, Hellblazer, ou Lúcifer (adaptação vindo em breve).

Kult – Divindade Perdida fica bom para Coffin Hill, Lugar Nenhum e outros cenários onde o sobrenatural está presente de forma assustadora e impactante.

Antes que me perguntem sobre o Mundo/Crônicas das Trevas acredito que o suplemento Second Sight (clique AQUI para saber mais) é o mais indicado para adaptar a maioria dos cenários em geral junto ao livro básico do sistema. Isso porque os livros de Vampiro, Mago e Lobisomem são muito específicos para seus cenários. Second Sight é um cenário mais genérico, com muitas possibilidades de adaptação e customização, além de se utilizar da baixa magia, bem no clima dos personagens humanos das histórias da Vertigo.

Quem deseja uma coisa mais heroica para suas aventuras da Vertigo, como acontece em Liga da Justiça Sombria, ou nas aventuras do John Constantine dos Novos 52, pode querer usar o sistema de Mutantes&Malfeitores com auxílio do suplemento Livro da Magia (clique AQUI para saber mais) com dezenas de ideias de aventuras, campanhas, personagens e inimigos para usar nas histórias. Um suplemento essencial para quem curte RPG, histórias em quadrinhos e cenários de fantasia urbana. Ele também é bom para aventuras da Patrulha do Destino, assim como Savage Worlds, mas com auxílio do Compêndio de Horror.

Já para cenários mais mundanos, como 100 Balas, DMZ, Xerife da Babilônia, A Cozinha: Rainhas do Crime, entre outros onde o crime é o ponto principal, aconselho o uso de Dust Devils com seus hacks de Anjos do Concreto ou até mesmo Fiasco.

AVALIAÇÃO FINAL

Devido a grande variedade de histórias e cenários mostrados nas HQs da Vertigo fica difícil apontar apenas um sistema capaz de adaptar as histórias do selo para mesa de RPG. Vai muito do gosto do grupo e do conhecimento de regas do narrador. Use aquele que você e seu grupo se sinta mais confortável e boa sessão!

9 pensamentos sobre “Vertigo: Qual O Melhor Sistema Para Simular O Universo Das HQs?

  1. Salve Velhinho, essa é uma das minhas ambições como Narrador: conseguir emular o cenário das HQ’s da Vertigo para o RPG! Acredito que o sistema Fate possa ter um resultado bem promissor já que possui regras abstratas e mais narrativas. Pretendo testar algo com esse sistema em breve.

    • Fala, Xará. Eu preciso conhecer um pouco mais o sistema Fate. Eu joguei ele há muito tempo atrás, antes de ser publicado no Brasil, adaptando as aventuras de Dragon Ball Z para o sistema. Depois conta pra mim como foi sua experiência nessa adaptação. Grande abraço.

      • Sugiro você dar uma olhada no Fate Condensado, ele tem um SRD em português e em breve vai sair o pdf traduzido também. Preacher e Hellblazer são os títulos menos complicados para se adaptar para sistemas convencionais, já Sandman e Lúcifer exigiriam algo mais narrativo (na minha opinião) e o Fate pode facilitar na adaptação desses conceitos mais cósmicos.

      • Vou fazer isso. Eu tenho o FATE Básico e Condensado aqui em casa, só faltou mesmo foui tempo de ler, mas como tá vindo as férias do meio do ano vou pegar e conhecer mais. Valeu e grande abraço.

  2. Faça isso meu querido, assim que eu iniciar esse projeto eu falo aqui como está sendo, provavelmente irei narrar pelo discord, em um servidor que faço parte! Grande abraço.

      • Mudanças de planos meu caro, decidi me organizar para adquirir o V5, e como sou muito fã de vampiros acredito que a ambientação da Vertigo não vai acontecer. Com o lançamento de Hunter 5e, torço para que tenhamos esse material traduzido também e assim, o tempo para outros projetos vai ficar escasso.

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