
Uma boa história precisa tanto de um bom vilão quanto precisa de heróis. É o vilão que dá motivação para a aventura, cria um objetivo a ser alcançado pelos jogadores e gera no público que acompanha a história o desejo de ver aquele personagem se dar mal ao final dela. Recentemente tivemos vilões em séries de TV que empolgaram a platéia com as maldades e os planos que tramavam: Cersei, Jofrey e Ramsey Bolton, em Game of Thrones, Flash Reverso e Zoom, em The Flash, Negan, em The Walking Dead, El Cuco, em The Outsider, são exemplos de vilões que tiraram o sono daqueles que acompanharam essas séries. Todos eram maus, todos eram perversos, sem remorso, todos marcantes, e apesar de torcermos pela derrota deles quando ela aconteceu criou-se um vazio por saber que não veríamos mais suas maldades nas histórias. Maldades essas que criaram o clima perfeito para o desenrolar da história que estava sendo contada.
No RPG o vilão também é muito importante. Todo mestre de RPG tem um vilão que ficou famoso entre seus jogadores. Pode ser porque o vilão era difícil de ser derrotado, ou porque sempre voltava depois de derrotado, ou porque seus planos eram muitos malignos, etc. De qualquer forma um bom vilão cria uma atmosfera na aventura maior do que simplesmente entrar na masmorra para pegar um tesouro que está sob a guarda de vários monstros. O vilão é responsável por tramar contra os personagens, por criar situações que dificultam a vitória dos heróis e por ser responsável por um plano que precisa ser detido ou tudo terminará mal para o mundo. Por conta disso ele precisa ser bem construído, com motivações claras da sua maldade e um carisma maldoso sendo tão, ou mais, importante quanto poderes e habilidades que ele possa ter. Mas não pensem que criar um vilão é algo fácil, acreditando que basta dizer que ele é mal e tem um plano maligno, encher de estatísticas altas que já está pronto. Por isso nesse artigo irei debater sobre a construção de vilões através dos tipos de vilões que existem e exemplos de como usá-los em campanhas.
O INTOCÁVEL
Existem uns tipos de vilões que por mais que os personagens queiram é impossível fazer algo diretamente contra ele. As ações dos personagens devem ser sempre de forma indireta, frustando seus planos sem atacá-lo em pessoa devido a uma condição ou característica que impede os heróis disso. Nessa categoria podemos pensar em Jofrey Baratheon, de Game of Thrones. Por ser o Rei dos Sete Reinos ele podia fazer as mais terríveis barbaridades que nem sua mãe, nem seu avô, que era a Mão do Rei, tinham poderes para reverter suas ordens insanas. Ele humilhava seus adversários e opositores na cara deles sabendo que ninguém poderia lhe encostar um dedo. Quantas vezes não nos doemos pela Sansa Stark e todos os outros alvos de suas baixarias? Jofrey não era forte, nem ágil, nem tinha nenhum poder sobrenatural, mas sua condição de Rei o tornava intocável pelos demais. Suas maldade e ironia misturada com deboche por saber que a lei lhe dava esse direito deixava todos que assistiam a série torcendo para que um dia ele se desse mal.
Esse conceito de vilão intocável serve de exemplo para se criar um perverso Príncipe em uma cidade da Camarilla, em Vampiro: A Máscara, que tenha a crueldade como marca e o conhecimento que ocupar o cargo mais alto na hierarquia vampírica na cidade o torna intocável. Ele não precisa ser o mais antigo da cidade, não precisa ser o mais poderoso, nem o mais forte ou inteligente, mas ele pode ser cruel, porque a Primigênie, o Senescal, o Xerife, os Anciões da cidade, vão protegê-lo por ser o simbolo de poder da Camarilla, e que tramar contra o Príncipe é um crime punido com a morte final.
Em uma campanha de Witchraft narrada por mim havia um demônio chamado Sammyala que operava disfarçado como humano na bolsa de valores de NY, como Mercador de Almas para o Inferno, dando dicas sobre ações que iam valorizar, ou desvalorizar, em troca da alma dos que desejavam se tornar milionários. O detalhe é que pelas regras estipuladas pelo Céu e Inferno nenhum anjo ou demônio pode ferir diretamente um ser humano, mas pode influenciá-los a praticar maldades que o leve a perder alma, da mesma forma que nenhum ser humano pode atacar fisicamente um anjo ou demônio. Dessa forma os jogadores só podiam atrapalhar os planos de Sammyala, forçá-lo a desistir de alguns, mas de forma alguma podiam atacá-lo diretamente. Aproveitando disso eu usava este vilão para influenciar os NPCs próximos dos PCs como alvo de suas tramas, tentando forçar que quebrassem as regras de não agressão para que sofressem as consequências do ato. Apesar de ser um demônio não eram seus poderes que importavam, já que não podia usá-los aqui na Terra, mas sim sua inteligência, seu carisma, sua lábia e sedução, e principalmente sua crueldade. Essas características que ele tinha em altos níveis o faziam um oponente difícil de ser batido e forçava os jogadores a quebrar a cabeça imaginando maneiras de derrotá-lo.
O PODEROSO
Assim como existe o vilão intocável, que nem precisa ser muito forte para ser memorável, há também aqueles que são muito poderosos por natureza. Esse tipo de vilão tem como característica poderes que estão muito acima do que os personagens podem dar conta. Poderes que estão acima da compreensão humana e que é impossível mensurar. Nessa categoria estão criaturas que existem em outros planos ou dimensões, e que desejam entrar na nossa, como os Mythos do Cthulhu ou seres do Abismo, de Mago: O Despertar. Ou então criaturas lendárias muito poderosas que vivem escondidas dos olhos mortais e que de vez em quando despertam criando todo um caos e destruição, como Dragões de cenários de fantasia medieval, ou os Antediluvianos de Vampiro: A Máscara. Todos eles são muito poderosos e impossível de se destruir, caso consigam passar para nosso plano de existência ou acordarem. Por isso além da característica de serem poderosos precisam ter uma limitação para dar chance aos heróis de derrotá-los e criar uma expectativa na história. O vilão poderoso é o mais usado pelos narradores em suas campanhas achando que criar um vilão cheio de estatísticas altas e toda a lista de poderes contida no livro de regras, ou usar um pronto do Livro dos Monstros, já basta, mas isso é um engano.
Vamos pegar como exemplo o Demogorgon da série da Netflix, Stranger Things. O Demogorgon desejava vir para a nossa dimensão e destruir tudo. Ele possuía um exército de criaturas que devoravam os humanos e podia abrir brechas na realidade por onde essas criaturas passavam para nosso mundo, além de fisicamente ser enorme, maior do que alguns prédios na cidade de Hawkins. Os personagens da história sabiam que ele era poderoso demais, mas ele precisava da Onze para abrir um portal para que ele passasse para o lado de cá. Apesar de poderoso estava limitado a sua dimensão, e a corrida contra o tempo começou para impedi-lo de passar para nosso mundo antes que ficasse forte demais para conseguir isso. Outro exemplo deste tipo de vilão é Sauron, de Senhor do Anéis. Frodo e a Sociedade do Anel precisavam destruir o Um Anel, o artefato mais poderoso da Terra-Média, criado com o propósito de aumentar o poder de Sauron, o que o faria o Senhor Supremo de todos os reinos. Eles precisavam leva-lo até a Montanha da Perdição e destruí-lo antes que Sauron estivesse recuperado de sua última derrota ou a Terra-Média estaria condenada para sempre.
Ou seja, ao criar um vilão poderoso, de poder imenso, crie também uma limitação e estabeleça um tempo que os personagens terão para impedi-lo, ou então as coisas podem ficar fora do controle. Permita que os personagens experimentem parte do poder do mal desses vilões, mostrando que é apenas uma amostra do poder dele, deixando claro o perigo de não detê-lo enquanto ainda está limitado. Coloque um grupo de aliados desse vilão trabalhando pra ele, fazendo oposição direta aos personagens, como um grupo de cultistas que adoram essa criatura, minions enviados por ele ou pessoas comuns que foram seduzidas por este ser poderoso. O RPG Cultos Inomináveis irá explorar muito esse conceito, mas com os jogadores fazendo parte do grupo de cultistas, assim como Chamado do Cthulhu cria um grupo de investigadores que se opõem a esses seres.
O DISFARÇADO
Esse é um dos vilões mais interessantes que há, e é aquele que deixa os jogadores o tempo todo da campanha especulando e teorizando sobre ele. O vilão disfarçado é aquele que os personagens não sabem quem é. Não se apresenta diretamente para seus inimigos, agindo nas sombras e deixando traços da sua maldade, sem revelar sua identidade. Ou então ele se apresenta geralmente usando uma máscara ou outro artifício para esconder seu rosto e some, como A Besta da série de TV The Magicians, que sempre aparecia com uma nuvem de mariposas em volta do rosto para que não soubessem quem era. Ou ainda Reynard, A Raposa, da mesma série, que enganou um grupo de bruxas usando um disfarce que era uma deusa para poder escapar de sua prisão e só então revelar sua identidade. Nesse tipo de vilão temos também o Flash Reverso de The Flash. O vilão passou a 1ª temporada inteira atormentando o herói, cometendo inúmeras maldades, mas sempre com o rosto coberto com uma máscara além de ter o rosto borrado pela supervelocidade.
A revelação da identidade desse vilão deve ser um choque para todos e deve ser o ponto alto da campanha. O fato dele não se revelar deve ter um bom motivo, e o melhor sem dúvida é ser alguém próximo aos personagens, ou então muito conhecido de todos, alguém que eles nunca pensariam que poderia ser o grande vilão. No caso do Flash Reverso ele era um cientista do futuro, chamado Eobard Thawne, que veio para matar o Flash, ficou preso no passado, assumiu a identidade de outro cientista, Harrison Wells, e enganou o Flash do presente, se tornando seu amigo e mentor, para tentar voltar a sua época, enquanto tramava para matá-lo. A fórmula deu tão certo que na segunda temporada eles usaram a mesma ideia de vilão com o Zoom, e mais uma vez era alguém próximo ao personagem principal, dessa vez um Flash de outra dimensão que estava ajudando ao Flash, ou pensávamos que estava, sabendo de todos os planos da equipe para tentar deter o Zoom. Quem se lembra do filme Drácula de Bram Stoker (1992), estrelado por Gary Oldman e Anthony Hopkins, deve se lembrar da cena quando Dr. Van Helsing disse: “É ele, Drácula! O morto-vivo que venho perseguindo por toda minha vida”, quando finalmente descobriu quem era o vampiro que estava causando inúmeras mortes. Não era próximo ao personagem, mas conhecido e famoso, o que choca tanto quanto a proximidade.
O IMPLACÁVEL
Este tipo de vilão é aquele onde a crueldade é a sua principal característica. Ele não perdoa, ele não dá chance, ele não erra, nem cede. Ele é totalmente focado em seus objetivos e executa seus planos passando por cima de todos que se colocam no seu caminho sem remorso ou perdão. Ramsey Bolton, de Game of Thrones, e a entidade conhecida como El Cuco, da série da HBO, The Outsider, se encaixam nessa categoria. São vilões que tem como características o sangue frio, a crueldade, o prazer em fazer o mal e contemplar o que fizeram. São guiados por um desejo de sangue, de ver o sofrimento de suas vítimas e se regojizar por isso. A marca desses personagens é a dor que provocam em suas vítimas. Eles são diretos e não fazem rodeio. Eles dizem o que irão fazer, como vão executar o que prometeram e quem se meter em seu caminho irá pagar caro por isso.O implacável toma o que quer para si, e não se importa com ninguém, além de si mesmo. Ele irá sacrificar qualquer um, até mesmo pessoas que estejam ao seu lado ou que gosta para atingir seus objetivos. Ele é frio e calculista sem remorso e sem compaixão.
Esse personagem precisa ter um reforço, seja de aliados, muito dinheiro, ou uma entidade poderosa ao seu lado, que o faça ter força para enfrentar um grupo grande de opositores. Ramsey tinha o exército do norte ao seu lado, enquanto o El Cuco tinha as pessoas que ele controlava mentalmente para executarem seus planos antes dele agir. Negan, da série The Walking Dead, se encaixa nesse exemplo. Ele é capaz de atos de selvageria e que chocam seus opositores para criar o medo de enfrentá-lo. Um lobisomem líder de uma alcateia corrompida pela Wyrm seria um bom exemplo desse tipo de vilão para se colocar em uma campanha de Lobisomem: O Apocalipse, ou um Senhor da Guerra com um grupo de Brutos ao seu lado em uma campanha de Apocalypse World.
CONCLUSÃO
Para se criar um bom vilão não é necessário grandes estatísticas, que irá fazer o narrador pegar um monte de dados e rolar. Destacar a personalidade do vilão e mostrar sua maldade, e como ele é capaz de provocar dor e sofrimento, é mais marcante e provoca um desejo maior em combatê-lo. Crie cenas onde ele confronta o grupo de jogadores, ou deixa pistas desafiando-os. Faça-os sentir vontade de derrotá-lo de verdade, não apenas porque a aventura pede. E mais importante é que força bruta não deve ser o único meio de derrotar esse vilão. Não pode ser várias rodadas de rolamentos de dados anotando quantos pontos de vida o vilão e os heróis ainda possuem que deverá ser a conclusão do enfrentamento dos personagens. Estimule planos por parte dos seus jogadores, faço-os descobrir as fraquezas do vilão, crie uma maneira inteligente de derrotá-lo, crie uma Quest, e também a faça a cena final dramática e glamorosa. Garanto de que dessa maneira seu vilão ficará na memória dos seus jogadores por um bom tempo.









Muito bom o artigo. Ótimas dicas. Posso dizer com propriedade a relação de amor e ódio que certos vilões, se bem construídos, podem gerar nos jogadores. Abraço.
Valeu, Detoni. Teve uns aí que era muita relação de amor e ódio, né?