O Modo Noir No RPG.

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Por Douglas Mota.

Todo mundo tem um plano e nada é o que parece (Noir…), e até a realidade é uma ilusão confortável (…encontra o Horror Cósmico)”.

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O gênero noir e suas imagens em preto&branco.

O Rastro de Cthulhu, RPG publicado no Brasil pela Retropunk Publicações, apresenta dois modos de jogo, o Purista e o Pulp, que são ótimos, mas são só alguns dos gêneros literários típicos retratando os anos 30. Eu sinto muita falta do gênero Noir, de detetives e damas fatais em cidades esfumaçadas, dos quais herdamos tantos clichês e estruturas narrativas.

No livro em inglês Arkham Detective Tales há uma série de aventuras que evocam esse estilo, mas ainda faltava alguma coisa, que eu espero transmitir aqui. Para isso eu lhes apresento um conceito: o Limiar, que a história e o cenário exploram e habitam. O Modo Purista se passa no Limiar da Realidade, onde o horror está no limiar da percepção, entre loucos, artistas e degenerados, em meio a ravinas desoladas e cidades esquecidas pelo resto do mundo. Já o Pulp desbrava o Limiar da Civilização, em selvas impenetráveis, templos antigos, e terras exóticas; onde a chave é o contraste entre a cultura do homem branco ocidental e os povos e civilizações ancestrais e selvagens (obviamente muito menos ignorantes sobre o Mito!). O Noir anda pelo Limiar da Lei de cabeça baixa, fumando um cigarro, em cidades escuras e labirínticas. O elemento cósmico trocando de mãos ou por detrás de conspirações e corrupção. Vejamos como criá-lo em nossas aventuras.

Protagonistas

Claro que no Limiar da Lei os Investigadores podem ser Policiais e Detetives, mas também vítimas (qualquer Profissão respeitável no aperto se encaixa) e Criminosos. As Motivações serão básicas, quase vulgares: Arrogância, Dever e Vingança. Os Investigadores irão confrontar os servos dos Mitos tanto quanto uns aos outros.

Lembre-se sempre do impacto da Grande Guerra sobre os personagens, um elemento clássico do gênero! Tanto em personalidade e histórico, quanto em regras; sim, os heróis podem ser bem durões e violentos, mas sempre traumatizados e cheios de cicatrizes psicológicas. Evite altos valores de Créditos, os melhores contos Noir acontecem nas sarjetas e vielas do centro das cidades.

Por fim, cada investigador deve escolher uma Habilidade Interpessoal como uma Distinção, para definir o arquétipo do personagem no gênero noir. Dobre esse valor durante a criação de personagem! Além das habituais, considere também Sedução como uma nova habilidade interpessoal, permitindo confundir o julgamento do alvo através de charme, beleza e aquele olhar matador de donzela em perigo. Sedução pode evocar pura luxuria, mas também saudades e até mesmo o genuíno amor. Diferente de Bajulação, ela pode ser usada de forma passiva, e até inconsciente! Claro que ela depende da inclinação sexual do alvo, e costuma causar um bocado de suspeita e ressentimento de testemunhas, especialmente se essas forem imunes à Sedução.

Flashback

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Os investigadores dos Mitos.

Uma nova Habilidade Geral que permite aos Investigadores adicionar reviravoltas ao caso, à custa de suas mentes. Para cada ponto de Flashback a Estabilidade e/ou Sanidade do Investigador deve ter seu limite máximo permitido pela crônica reduzido em um. Você pode, no momento que usar um Flashback, revelar que desde o começo…

  • Sabia algo relacionado ao mistério – que queria roubar o ídolo secreto desde o início, que estava atrás esse mesmo culto por vingança, que você e o vilão eram comparsas antes.
  • Estava conectado em segredo a outro Investigador – o que tem que ser acordado entre os jogadores e ambos devem gastar a mesma quantidade de pontos de Flashback.
  • Era algo completamente diferente – talvez um cultista decidido a atrapalhar a investigação ou usá-los para seus próprios propósitos (tão bem ou mau intencionados quanto quiser), ou mesmo um descendente da linhagem incestuosa que infesta a cidade.

Quanto mais tarde na história voce revela o segredo do seu Flashback, mais pontos ele custa. Via de regra um ponto para cada sessão naquele caso. Seus Flashbacks só podem revelar qualquer coisa relacionada ao Mito se você gastar pontos permanentes de Sanidade. Além disso, você perde pontos de Estabilidade e Sanidade por atos e verdade profanas normalmente quando invoca Flashback. Você talvez seja mesmo um louco perigoso desde o início do caso! Se você tiver mais de 8 pontos de Flashback você é considerado Amnésico, outro clichê comum ao gênero. O custo de invocar Flashbacks passa a ser sempre 1 e você ganha 1 de Estabilidade a medida que a verdade lhe for relevelada.

Antagonistas

Abuse dos Cultos! Mantenha o horror humano, e a humanidade horrível. O Mito deve ser um pano de fundo do cenário: a fonte de poder cobiçada, a razão por trás dos assassinatos, a crença que une os vilões. Se tiver que usar monstros, evite o pesadelo zoológico gosmento típico. De preferência escolha aqueles que afetem o ambiente e faça dos prédios, vizinhanças e a cidade um reflexo distorcido (em ótica e moral) do habitual:

  • Agentes dos Yithianos podem ser um recurso de paranóia (induzida pelo Medo Vermelho doas anos 50) típica das história Noir.
  • Um Lloigor desmaterializado pode ser o patrono espectral de uma família disfuncional e rica, envolvida num caso de assassinato ou pior.
  • Uma Cor que Caiu do Céu ou um Devorador do Espaço em uma grande cidade podem causar efeitos estranhos o suficiente para surpreender mesmos os jogadores mais veteranos.

Os conflitos devem ser definidos por quem arma a melhor tocaia. Não há duelos acirrados no Noir, e sim surras ou tiros secos pelas costas; um dos lados sempre tem a clara e total vantagem. Depende de investigação, preparação e senso de oportunidade para se decidir se os Investigadores vão aplicar ou tomar uma sova.

Conclusão

Esse artigo só arranha o assunto, Noir é um dos gêneros dramáticos mais fáceis de se identificar visualmente, e dos mais difíceis de se definir. Se você acha que Sin City é o melhor que o noir tem para oferecer, a coisa pode ficar meio feia. Mas Coração Satânico, Los Angeles: Cidade Proibida, 9mm, entre tantos outros são referências sólidas do clima e motivação Noir. E para quem se arrisca no inglês, há várias antologias de contos e algumas novelas a respeito clicando AQUI.

Então ajeite seu sobretudo, baixe seu chapéu na chuva do fim de tarde, acabe com seu whisky e acenda um cigarro, amigo. O mundo lá fora continua girando, mas não sai do seu eixo torto… por enquanto.

8 pensamentos sobre “O Modo Noir No RPG.

  1. Amei o modo como foi definida a diferença entre o Noir e o Pulp, sempre achei os dois tão próximos e ainda assim tão distantes, quase como as comédias e dramas de Shakespeare [sem pedras em cima de mim por falar isso, por favor. Ambos tem sua profundidade, mas o nivel e profundidade e da dificuldade do desafio que marca um como o outro.] Muitos fans de Cthullu não são favoraveis a perspectiva Pulp, por faltar exatamente o horror e a certeza de catastofre rsrs , em Noir isso ainda não é uma certeza também…embora a tensão do cenário possa ser considerado ” próximos”, será que Cthullu em Noir poderia mostrar mais o horror do que o humanos e os Mithos poderiam ter juntos..ou de um humano em especifico..ou sera sempre o Mithos quem causara o grande terror? [Não me joguem pedras denovo, pleaseee ><]

    • Bom que gostou Chris.
      Resposta em duas partes:
      1) Pulp se tornou um nome fácil para cobrir uma variedade imensa de estilos e gêneros! O equivalente moderno é dizer que algo seja ‘fanfic’ por exemplo; descreve a mídia, o propósito, mas uma fanfic pode ser terror, ação, erótica, comédia, etc. Mas quando voce se debruça com mais carinho sobre o Pulp essa vertente do confronto da civilização anglosaxonica contra o resto é bem claro.
      Por outro lado o Pulp PODE ser uma boa fonte de horror! Quer algo mais tabu do que canibalismo ritual?
      Na verdade, um dos meus autores favoritos é Pulp, Jack London!
      Auto de alguns dos contos mais sinistros que já li: To Build a Fire, The League of Old Men, e Koolau, the Leper. Pretendo escrever mais a respeito.

  2. 2) O horror do Noir, na minha opinião, tem que ter elementos BEM humanos. O genero afinal sempre teve os dois pés firmemente plantados na ficção policial. Claro, o Mythos corrompe, mas o Noir floresce quando a depravação do Mythos é MAIS UM crime hediondo, ou um MEIO de expandir a corrupção e o poder dos antagonistas.
    Espero ter ajudado!

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