Apostando Nos Mitos Nacionais.

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O curupira, repaginado. Bem melhor!

Há um bom tempo venho travando uma cruzada para que mestres e jogadores brasileiros (inclusive eu mesmo) comecem a valorizar nossa cultura e nossas lendas em nossas sessões de RPG, deixando de usar os cenários estrangeiros, assim como seus monstros, como referência para nossas aventuras. Durante muito tempo fomos doutrinados a acreditar que nossos mitos e lendas eram coisas de criança, coisas engraçadinhas, enquanto estudávamos e valorizávamos a cultura estrangeira, principalmente a norte-americana e a européia, como algo muito melhor (como se culturas pudessem ser medidas ou comparadas), fruto de nossa colonização de exploração e de nossa atual dependência econômica e cultural com essas regiões. Como todo material produzido para os livros e cenários de RPGs que usamos são estrangeiros é óbvio que a tendência é usar os mitos e lendas estrangeiros como referência para nossas aventuras, sejam elas de fantasia medieval ou para os dias atuais.

Durante um bom tempo acreditei que poderia estar sozinho nessa batalha, mas percebo que cada vez mais começa a haver uma modificação na maneira de se enxergar nossas lendas e mitos, e lentamente está sendo criada uma nova mitologia, repaginada, das lendas nacionais. Quem acompanha meu blog já deve ter lido sobre o cardgame nacional Batalha dos Mitos que está para ser lançado em breve usando nossos tradicionais personagens do folclore nacional como personagens do jogo (se você não leu o artigo clique AQUI e veja que belo trabalho). A arte deles, dando uma nova leitura a imagem dos nossos mitos, é algo que deve ser aplaudido de pé! Há também o blog RPG Nacional do blogueiro Silva Pacheco, um blog que deve ser leitura obrigatória para todos que desejam criar cenários nacionais para suas aventuras. Inclusive recentemente foi lançado por Silva Pacheco um cenário chamado Lamento de Tupã, que pretende explorar as divindades indígenas como personagens nas aventuras. Além deles o blog RPGista fez há um tempo atrás um cenário para Dust Devils usando o pampa gaúcho e a figura do gaúcho como um contra ponto as histórias do Velho Oeste Americano. Se falamos tanto do caubói e dos duelos ao pôr do sol, porque não falar do peão e de sua luta pela fronteira dos Pampas?

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Guerreiros de Gaia no estilo nacional. O que acham?

Mas nesses últimos dias fiquei mais contente ainda ao descobrir que mais sites e empresas estão apostando nos cenários e mitos nacionais em seus jogos. O primeiro foi o site Bellum Brasilis da Riachuelo Games. O site é voltado para jogos de nível tático, cobrindo diversos episódios da história do Brasil. Entre os cenários encontramos:  O Cerco de Palmares, A Batalha de Cricaré e A Batalha da França Antártica (quem assistiu a Tela Quente na semana passada com o filme “Brasil Vermelho” tem uma leve ideia do que se trata), entre outros. Todos os jogos, com regras, tabuleiros e componentes, estão disponíveis para Print and Play e podem ser baixados de graça. Imperdível!

Também fiquei muito empolgado com as miniaturas do grupo “Contos Urbanos” que pretende dar uma repaginada na aparência de nossas lendas. O grupo é de Sorocaba e segundo eles: “O objetivo é resgatar personagens muitas vezes esquecidos em nossa própria cultura e folclore, porém buscando imprimir nas miniaturas um design mais maduro e assustador, dando uma nova roupagem às velhas lendas contadas de geração em geração. São miniaturas na escala 32-35mm de alta qualidade que poderão ser utilizadas na maioria dos jogos de tabuleiro e RPGs disponíveis no mercado.”

Cada miniatura ficou mais bonita do que as outras e fiquei imaginando algumas delas sendo usadas em Zombicide. Ia ficar bom demais! No blog Sombras da Realidade vocês podem ver um vídeo de todas as miniaturas e conferir a qualidade.

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As miniaturas das nossas lendas, da esquerda para direita: ET de Varginha, Cabra Cabriola, Loira do Banheiro, Palhaço da Kombi e Mapinguari.

Acho que aos poucos vamos mudando essa visão preconceituosa de ver o Brasil e suas lendas dentro de nossas aventuras como algo menor e sem valor e começarmos a construir nossa própria mitologia. Já imaginou um cenário no estilo de Old Gods de Este Corpo Mortal que ao invés de deuses da antiguidade egípcia e grega tivesse deuses nacionais indígenas e os orixás africanos lutando contra a descrença cada vez maior neles devido a novos deuses que surgiram? E que tal um grupo de lobisomens brasileiros lutando pela amazônia e enfrentando os temíveis Mokolés, licantropos jacarés, em Lobisomen: O Apocalipse? Ou uma sessão de A Fita (RPG 100% Nacional) com os jogadores mostrando a filmagem de um ataque de alienígenas no interior de Minas Gerais? Acho que tem potencial.

Quem quiser ter mais ideias sobre aventuras e cenários, e como usá-los em suas aventuras, clique AQUI e veja o que já publiquei sobre o assunto. E não esqueça de visitar o blog do RPG Nacional. Lá existem muito mais ideias e material para você e seu grupo começar agora a se aventurar com os mitos, lendas e cenários nacionais.

9 pensamentos sobre “Apostando Nos Mitos Nacionais.

  1. De fato, o cenário Brasileiro é riquíssimo, e é muito legal compartilhar dessa percepção de que o ambiente está aos poucos mudando em favor daquilo que um dia ficou de lado, Mestre. Alguns aninhos atrás, a minha diversão e a dos meus primos no morro da Consolação em Vitória se limitava a ir para casa do meu avô, sentar a volta de seu banco improvisado com um tronco de uma árvore, chupar manga e mascar cravo da índia, enquanto ouvia atenciosamente as suas histórias/recomendações sobre o Saci Pererê, a Mula Sem Cabeça, o Curupira e outros mais… Meu vô benzedor, nascido muito antes de 1900, era GM naquele tempo rsrs. Cara, algumas pessoas me perguntavam por que eu me acabava de rir com filmes de terror do tipo Exorcista e outros clássicos com demônios e blá blá blá, porém, não brincava com Saci e outros tipos dos nosso folclore, bom, tá aqui a resposta. Pessoalmente, já comprei fumo na padaria falando que era para o meu pai, somente para levar para fazer um agrado para o Saci, quando eu e mais alguns amiguinhos inventamos de fazer cabana na mata no fim da rua da casa dos meus pais em Barcelona, isso lá pelos idos de 88 e 90, salvo engano. E olha o dilema na cabeça da molecada naqueles dias: “Será que o Saci vai se importar se o cigarro for Free?” Rsrs. Vamos começar uma aventura de Desafio dos Bandeirantes daqui algumas semanas, ambientada aqui no ES, e isso tá prometendo.

    • Meu avô também fazia das suas com os netos quando eu morava em Campo Grande/RJ lá pelos idos dos anos 70. Também morria de medo do Saci, da Cuca, da Mula Sem Cabeça, etc. Precisamos resgatar nossa memoria cultural, e nada melhor do que o RPG pra isso. Quero detalhes dessa campanha de Desafio dos Bandeirantes, heim?

    • Tudo é questão de costume, Rogério. Nos acostumamos tanto com as histórias sendo contadas em outros lugares que não conseguimos imaginar no nosso. Mas se exercitarmos isso talvez possamos mudar esse conceito.

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